OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


21.3.06  



Da desfiliação

Dois artigos - um no DN, outro no Público - noticiam hoje a minha desfiliação do Bloco. É bem provável que, a julgar pelos telefonemas, outros jornais se sigam. Os dois artigos são decentes. Não pediram "sangue". Embora eu saiba que cada vez mais a política é vendida e consumida como uma telenovela. "Filiação" (curiosa expressão...) e "desfiliação" tendem a ser interpretadas, hoje, da mesma maneira que as paixões, casamentos, divórcios, brigas, infidelidades, traições, reconciliações - enfim, toda a panóplia do pequeno romantismo. Por um lado, é bom: dessacraliza a "coisa", mostra quão deliciosamente banais somos todos. Por outro, é mau: atribui um estatuto identitário à filiação partidária que ela não deve ter. É um pouco como se ainda estivessemos em 1974-75, quando quem se era e não era se jogava na filiação e/ou na simpatia partidárias.

Remeto os e as prospectivos jornalistas para o post que escrevi sobre o assunto. Porque a memória tende a ser curta, mesmo ao fim duma semana. Está lá o que tem que estar. Não há agenda escondida. Provavelmente acham-me um freak ou, na pior das hipóteses, um caso crónico e patético de individualismo ingénuo ou ingenuidade individualista. Oh, well. Uma coisa garanto: continuarei como cidadão activo, em várias frentes e modos. E, perante a minha consciência, a minha responsabilidade cívica face a determinadas convicções e causas permanece intacta. Só não o farei nas orgânicas partidárias - e não vou deitar o Bloco para o caixote do lixo da memória. A partir do meu "caso", todas as ilações tiradas sobre o Bloco, o seu passado, estado actual e futuro, são da exclusiva responsabilidade de quem possa vir a tirá-las. Não minhas. No meu "acto" poderá ler-se tudo o que se quiser. Mas a minha versão autorizada, tenho-a eu.

Espero não ter que escrever muito mais sobre este "assunto". Sorry pela seca aos visitantes deste blog...

mva | 18:33|