OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


23.3.07  

Fundamentalismo

«Em Maio de 2006, uma alemã de origem marroquina apresentou queixa num tribunal de Frankfurt contra o marido por violência doméstica. Mas como, cinco anos antes, casara segundo a lei islâmica, uma juíza alemã decidiu não lhe conceder o divórcio alegando que o Alcorão permite esse comportamento.» (DN)

Não, não se trata de mais um exemplo dos "horrores" do "politicamente correcto", como alguns diriam. Não se trata tão-pouco de relativismo cultural (que deve ser um método de análise cultural, não confundível com o relativismo moral) . Trata-se, antes do mais, de estupidez e ignorância - desde logo em relação ao Islão, a Marrocos, etc. Trata-se, depois, de um entendimento cristalizado do que é "uma cultura" e da relação entre ela e as pessoas que supostamente a "veiculam". Trata-se, por fim, de algo muito parecido com o separate but equal do antigo racismo institucional do sul dos EUA ou com as justificações do apartheid. A ideia de culturas monolíticas, separadas, sem dinâmica de transformação, não tradutíveis entre si, sem mistura possível, e que funcionam como normativas para os seus "membros" (e a própria ideia absurda de que as pessoas - sobretudo algumas... - se definem primeiro como "membros de culturas"...) é uma ideia profundamente conservadora e já designada em antropologia como fundamentalismo cultural.

mva | 08:45|