OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


6.6.06  

Latin@

Quando um canal como a ABC transmite os prémios "Alma" relativos a música, cinema, teatro, etc, latinos, percebe-se que se concluiu o processo de criação duma entidade/identidade étnica. Os prémios, patrocinados pelo National Council of La Raza (bem sei, o nome é assustador na última parte, mas o sentido não é bem "esse" originalmente (ainda que igualmente problemático, e de que maneira), não só dão relevo às estrelas latinas; eles confirmam a latinidade, que junta pessoas originárias ou descendentes de todos os países de língua espanhola nas Américas. Fizeram o que nem o Lusotropicalismo nem a Lusofonia (essas versões de La Raza) conseguiram. Mas o processo é obviamente problemático e ambíguo: no sistema estadunidense de classificação etno-racial, latino está a transformar-se numa categoria equiparada a "negro" e a "branco".

Mas há o outro lado: a cerimónia acontece num momento de grande contestação das políticas anti-imigração. George Lopez, actor, apresenta-se dizendo "Olá, estou muito contente por ainda estar aqui". Mas foi a "hospedeira", Eva Longoria de Desperate Housewives, quem rematou melhor as coisas. Disse que o seu papel é histórico por representar pela primeira vez uma dona de casa latina que tem um jardineiro... branco. E ironizou com a política de imigração dizendo que não se pode deixar de reenviar para casa todos esses canadianos que todos os dias atravessam impunemente a fronteira. Ao dizer isto, acabou por explicar grande parte do que está em causa com esta entidade/identidade latina (e o crescente medo dos EUA mainstream em relação a ela). Uma categoria nascida, curiosamente, na imigração e na imigração para os EUA.

mva | 03:23|