OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


9.5.06  



Guionistas nacionais precisam-se

Notícias dispersas sobre política de natalidade, segurança social, discursos racistas de polícias, retóricas distrorcidas sobre imigração, lamúrias constantes sobre o estado de alma do país, e por aí fora. Tudo coisas que têm a ver com a ausência de uma narrativa minimamente consensual sobre o país. Não por existirem muitas narrativas claramente em confronto (antes houvesse... alguma coisa poderia, dialecticamente, daí resultar...), como seria natural dados os conflitos sociais e diferentes interesses; mas por não existir nenhuma que as elites e o estado consigam (ou queiram) promover e que seja suficientemente popular. O que existe à disposição? Em primeiro lugar, uns restos, mais ou menos requentados, da narrativa revolucionária dos anos setenta. Em segundo lugar, e poque ela conseguiu criar raízes profundas, a narrativa bicéfala do fascismo à portuguesa: rural, católica, paradista, por um lado; colonial, lusotropical, e glórias-do-passadista, por outro.Em terceiro lugar, um aggiornamento mais liberalão desta: a narrativa atlântica e cêpêelpê. Nada disto serve. Tudo isto já mostrou que só consegue inovar na variedade do môfo. Nas últimas duas décadas chegou a parecer que uma outra narrativa, a europeia, poderia ser uma saída. Mas o conservadorismo liberal (ou liberalismo conservador) português - em que ao liberalismo económico se recusa fazer corresponder o liberalismo no campo da decência, dos direitos, das liberdades - tratou de torcer a narrativa europeia em mero desenvolvimentismo (e ainda foi buscar ao baú do passado uma pitada de hispanofobia quando percebeu que a integração europeia era a integração ibérica). E diga-se em abono da verdade que a UE não ajudou a evitar isto.

Vivemos dos restos bafientos e contraditórios das velhas narrativas. Precisamos de ruptura com as velhas narrativas. Precisamos duma narrativa que veja o país (o colectivo, não "A Nação") como um processo de decência em construção. De quebra com os vícios do passado. Imaginar um rectângulo onde se promova a solidariedade e a justiça, os direitos humanos e a diversidade cultural conducente a uma nova mistura. Um lugar onde em vez de se limpar constantemente o passado, se faça a sua reparação através de políticas de futuro. Ninguém em Portugal - no estado e seus aparelhos, nas suas elites políticas e intelectuais - consegue articular uma narrativa progressista. Que tente ultrapassar o problema das narrativas nacionais autorizadas (que, é certo, sempre excluem alguém, definindo quem é o sujeito da estória/história), criando uma que seja plural e inclusiva.

Na ausência desse esforço, toda a gente se socorre dos restos do que existe: passado autoritário, passado colonial, passado revolucionário, miragem dos fundos europeus, hispanofobia... O governo de Sócrates tornou-se mesmo num exímio bricoleur de todas estas estuchas, ora dando uma no cravo (et pour cause...), ora na ferradura. E no campo da literatura ou do cinema ou das humanidades, ainda está para nascer alguém que consiga dar(-se, -nos) ânimo e que não se limite a escarafunchar as feridas - justamente o que fiz aqui...

mva | 23:06|