13.4.06

Boa educação
A história do acórdão que legitima a imposição de castigos físicos às crianças - porque é disso que se trata - faz-me recordar a conferência de Slavoj Zizek a que assisti ontem. Dizia ele às tantas que o que intriga nas imagens das torturas em Abu Ghaibr não é o facto de ficarmos a saber que o estado tortura pessoas ou que a guerra dá azo àquelas formas de crueldade. Isso estamos fartos de saber. O que intriga é porque quer o estado que se saiba; porque mostra (quando estávamos bem mais habituados à censura)? Ele vê nisso um sinal de mudança nos valores éticos, uma crescente afirmação de que não há que ter vergonha, as coisas são mesmo assim, e precisam de ser mesmo assim. Uma espécie de "ética" neoliberal. Estarão os nossos velhinhos juízes (e os jovens envelhecidos entre eles) a enveredar pelo mesmo caminho? Toda a gente está morta de saber que as crianças sofrem maus tratos. A maior parte das vezes ao abrigo da "privacidade" das famílias e instituições. O que não tínhamos ouvido ainda era a defesa dessa realidade pelos administradores máximos da justiça.
PS. Um telejornal americano acaba com a peça de fait-divers. Mostra como os soldados americanos no Iraque estão a aprender a respeitar a cultura iraquiana através de um jogo de computador. Como tirar os óculos de sol ao falar com alguém, como não apontar o dedo a ninguém, e por aí fora. "Uma questão de boa educação", conclui a jornalista, com um sorriso pacificador ("vá, vão dormir e não se preocupem"). Curioso que nunca tenha dito que não é lá muito bem educado invadir outros países...
mva |
16:27| 
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