22.3.06

Sobre a presença de bebés nos parlamentos, ou o fim da revolução francesa
Uma reportagem num canal francês sobre a transparência política. Exemplo: a Suécia. Com aquela expressão de boi mirando palácio que fica bem a qualquer um que acha estar no centro exemplar da democracia e de repente descobre que não, uma ex-ministra francesa e o jornalista comentavam deliciados as imagens. E que mostravam as imagens? Mostravam o conselho de ministros comendo na cantina da sede do governo o almoço correspondente a uns cupões distribuídos mensalmente, e sem consumirem um tostão além do previsto; mostrava uma jornalista fazendo a sua ronda diária dos ministérios onde consulta os arquivos com todas as facturas de despesas dos ministros, todas, pois a lei obriga a sua disponibilização, sem perguntas sobre os propósitos da consulta por parte dos funcionários, que tão-pouco são supostos demonstrar "mau humor" (!); mostrava como, embora pagando 50% do valor de mercado, o primeiro-ministro tem que pagar renda pela casa oficial - digna, mas sem cozinheiro ou sequer pessoal doméstico permanente.
Mas mais do que as regras de transparência e accountability, ou a interiorização do espírito igualitário pelos suecos, é a "apresentação de si" que acaba transmitindo o significado mais forte: a Directora de Comunicação do primeiro-ministro é uma jovem vestindo jeans puídas, umbigo à mostra, uma t-shirt. Está a falar ao telemóvel, no qual deve introduzir um código sempre que a chamada é de trabalho, paga pelo estado. Quando não, paga ela.
Por um mero acaso, zapo para outro canal, onde tropeço em políticos franceses no parlamento local (podia ser S. Bento) falando aquele dialecto "republicano" e cheio-de-si carregado de elitismo e cinismo. Nas tintas para os efeitos a longo prazo da nova lei laboral para jovens, como já haviam estado nas tintas para a violência suburbana de há meses atrás. O governo francês (cujos ministros dispõem de chef pessoal e não disponibilizam facturas a ninguém), como tantos outros, precisa do afastamento aristocrático para destruir o estado social e lançar as bases da precarização e empobrecimento gerais (as duas vão juntas - e essa é a grande diferença em relação, por exemplo, à precarização à americana, que não tem uma relação necessária com o empobrecimento).
A comparação poderia perfeitamente ter sido entre a Suécia e Portugal. Mais que tudo, a "cultura" política portuguesa é um subproduto da "cultura" política francesa - o que não abona a favor nem duma nem de outra. Na reportagem anterior, a ex-ministra francesa contava como tinha ficado impressionada com a presença de bébés em alcofas no parlamento sueco. Parlamento que, de qualquer modo, acaba os seus trabalhos a meio da tarde para deixar os seus membros viver como gente comum - e assim, suponho, ganhar vergonha de fazer políticas contra o bem comum.
mva |
10:04| 
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