30.3.06

Emergir
Odeio: luzes de tecto (comprar urgentemente candeeiros); call centers, em que às tantas é o fulano em Miami que me dá o recado que eu transmito ao cicrano em Madrid que não recebe informação do beltrano em Chicago); perda de bagagem em companhias aéreas ibérico-incompetentes (ver ódio anterior); frigoríficos no meio de salas; pessoas porcas que, para lá de qualquer relativismo cultural, deixam os apartamentos em estado de histeria bacteriológica para o inquilino seguinte; burocracia, do Velho ou do Novo Mundo, pouco importa, sobretudo desde que o Novo está mais velho que o Velho.
Gosto: dos blues da saudade do mais-que-tudo e do seu espírito perdulário telefonante, mesmo antes de termos rede para usar o Skype na casa de Chicago; de patrícios solidários que se prestam a coisas tão básicas como ajudar a ir ao supermercado; de bagels, reencontrados com gusto; de ver adiante um mundo de possibilidades intelectuais, porque o intelecto é uma zona erógena; de voltar a esta também minha terra e sentir o que se sente pela terra que é nossa - ambiguidade.
(Podia ter postado sobre um episódio - relatado já por n pessoas - com densidade sociológica (e agora vou mesmo falar disso, recorrendo assim ao mais velho truque retórico): ao registar-me nos serviços internacionais da universidade, o formulário pergunta-me a "raça". A senhora que me atende é "negra". O senhor que me acompanha é "branco". Brinco (e provoco) dizendo que não respondo porque não faço ideia qual será a resposta certa (se é que deve sequer haver resposta); por uns segundos parece-me que a senhora compreende a minha piada e que aceita a minha atitude. Que nada: diz que tenho que responder assinalando uma das hipóteses, não importa qual. O senhor que me acompanha contém uma risada, encolhe os ombros e diz «ponha "branco"» (aspas minhas, of course). Adeus, boa tarde, saímos para a rua e durante uns bons cinco quarteirões eu e o meu acompanhante falamos sobre "raça", as categorias da [mal]dita e as variações nacionais de tão colorido assunto.)
Pronto. Postei. Estou em Chicago, no amoródio do entusiasmo da descoberta, do poder brincar ao académico não burocrático com síndrome de Bolonha, e da persistente pergunta: por que raio se sai de casa, lá onde o coração está? (Resposta possível: também para se dizer que o coração está lá).
mva |
16:21| 
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