OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


1.3.06  



Caridade e moleza

Há qualquer coisa de errado quando pessoas como Luís Fernandes e Eduardo Prado Coelho, que respeito muito, escrevem artigos como os de hoje no Público. Ambos sobre o assassinato de Gisberta, falam de tudo menos da componente homofóbica e transfóbica do crime. Ambos os autores são pessoas com consciência social e activos na denúncia de discriminações. Como não perceberam? Como podem ser tão moles em relação ao assunto?

Tudo indica que o nojo pela alteridade sexual terá sido a mais forte das motivações para o crime - e será com certeza, nas cabeças dos "jovens", suas famílias, "educadores" e advogados, a mais forte das "desculpas". Não só porque é o menos evitado na pedagogia (da escola, da família, dos media) que, apesar de tudo, se vai fazendo em relação ao racismo ou ao sexismo ou em relação às condições de toxicodependência ou sem-abrigo. Mas sobretudo porque esse nojo encontra (ainda) eco na sociedade.

É nas omissões que se detecta esta "transnegação": já a Fernanda Câncio referiu no Glória Fácil como os media não mostraram nenhuma foto da Gis, recusando-lhe a personalidade e humanidade. E muitos jornalistas e opinadores continuam a recusar-se a falar dela no feminino ou a perceberem o que é a transexualidade do ponto de vista duma transexual. Hoje mesmo, no DN, Pedro Rolo Duarte insiste em "o travesti".

A atenção nacional centra-se na caridade sociológica face aos criminosos. Porque são jovens e ninguém - sobretudo quem é pai de jovens... - quer imaginá-los preconceituosos, odiosos e violentos. A sua condição de "vítimas sociais" nos planos familiar e escolar sobrepõe-se, com uma espantosa ausência de autocrítica, não só à infinitamente maior vitimização social das Gis deste mundo como à sua vitimização máxima: a morte violenta, prolongada e com sevícias sexuais.

mva | 10:16|