OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


5.2.06  

Pensar mal faz mal

Diz José Caldas, «professor», em carta aberta ao Público, a propósito do caso dos cartoons: «Na verdade, a vulgata multiculturalista, herdeira frustrada dos desenganados do marxismo, da antropologia cultural pós-colonialista e do campismo selvagem, decidiu distribuir o globo em duas categorias: os "maus" e os "bons". Este quadro conceptual ajuda-os a distinguir, de modo sectário, faccioso e acéfalo, entre o certo e o errado. Nos "maus", encontramos a raça branca, a cultura ocidental (em sentido genérico), o macho, o heterossexual, o rico e, o detentor de qualquer tipo de autoridade; o grupo dos "bons" inclui as raças não brancas, as culturas não ocidentais, a mulher, o homossexual, os não ricos e os não detentores da autoridade.»

Acontece que tenho coordenado dois cursos de mestrado, justamente sobre Colonialismo e Pós-colonialismo, um, e Multiculturalismo e Identidades, outro. Em qualquer dos casos, "pós-colonialismo" e "multiculturalismo" são objectos de estudo e não programas políticos ou morais. Um dos fenómenos analisados é justamente a forma como o senso comum facilmente confunde relativismo cultural com relativismo moral. Ora, o primeiro faz parte do método da antropologia, e nunca deve ser confundido com o segundo. Quem ensinar antropologia promovendo esta confusão, faz um mau serviço à disciplina e à sociedade.

Posto isto, a referida carta aberta é um exemplo entre muitos outros de um curioso fenómeno: argumentos que reproduzem a própria coisa criticada. A "crítica" dum suposto maniqueísmo nalgumas práticas intelectuais contemporâneas, apresenta-se ela mesma de forma maniqueísta. Curioso é verificar que já é a segunda vez numa semana (Helena Matos, há poucos dias) que a antropologia passou a pertencer ao grupo dos tais vilões que supostamente dividem o mundo em bons e... vilões.

Adiante: aconselho José Caldas a ler o meu post anterior, a propósito também do caso dos cartoons dinamarqueses. É que, do ponto de vista das minhas crenças políticas, o mundo não se divide - não deve dividir-se - entre "civilizações", essa nova versão suavizada da divisão entre civilização e barbárie (em que maniqueístas dos dois tipos ora acham que a "civilização ocidental" é superior, ora a acham culpada de todos os males do mundo). O mundo divide-se, sim, entre quem defende a democracia e os princípios liberais fundamentais, e quem os despreza totalmente. Dos dois lados da "barricada" encontram-se cristãos e muçulmanos, ocidentais e orientais, gente de esquerda e gente de direita, e por aí fora. E pouco importa se a democracia liberal (uma coisa fundamental de defender, mesmo que insuficiente, defeituosa e tantas vezes enganadora) é invenção do ocidente - também a máquina a vapor o foi e não é por isso que deixa de ser universalmente utilizável.

Nada disto impede - aliás, acho que somos a isso moralmente obrigados e, se por acaso formos antropólogos, temos algo a dizer no sentido da compreensão dos fenómenos - que se investigue porque reagem tantos muçulmanos da maneira que estão a reagir. O que tão-pouco impede que, enquanto cidadãos capazes de escolher o que queremos para a nossa vida colectiva, recusemos liminarmente as exigências dos revoltados.

mva | 13:43|