11.2.06

Mediterrâneo
Por isso mesmo é que é bom dizer-se o que não se está a dizer quando se toma posição a favor da liberdade de expressão, como fiz, a propósito do caso dos cartoons. Não leio o mundo como estando dividido em "civilizações" incompatíveis - isso cria mais o problema do que o explica; Não acho que o fundamentalismo islâmico e o Islão (e os vários Islãos) sejam a mesma coisa; Não acho que se possa confundir a vivência do Islão com a manipulação política da religião por parte de ditaduras; Não deixo de achar que a guerra do Iraque e a Bushização do mundo são atrozes; Não atribuo nenhuma superioridade ao Ocidente e aos princípios da democracia liberal - apenas prefiro esse sistema aos outros disponíveis e tenho o direito de o defender; Não acho que nazi-fascistas sejam parceiros legítimos em lutas pelas liberdades. Etc., etc., etc..
Mas estas "explicações" só devem ser dadas num segundo momento, depois de claramente se defender um princípio. É claro que, na grande perspectiva das coisas, está a haver, incitado por ditadores de países islâmicos e por Bush, um crescente conflito Ocidente/Islão. Mas o conflito dos cartoons começou com a "exigência" de um pedido de desculpas do governo dinamarquês, o que significaria uma interferência na liberdade de expressão dum jornal, por mais execrável que possa ser. Focar o assunto na defesa da liberdade de expressão é justamente evitar transformá-lo num caso de guerra Ocidente/Islão. Mas, é claro, surgiu logo quem quisesse apanhar boleia e promover a agenda Bushiana e a islamofobia.
O receio desse efeito deveria ter-nos feito ficar calados? Não.
mva |
11:13| 
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