OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


17.1.06  

Queer : teoria desviada, teoria excêntrica



A noção e a designação de "teoria queer" estabeleceu-se definitivamente. No entanto, continua a soar-me queer que tenhamos que usar a expressão... queer. Assim, dita em inglês num contexto de comunicação em português, perde-se o sabor da expressão. Queer era/é um insulto como "maricas", mas também um adjectivo "normal" para dizer "esquisito". Seria óptimo que se conseguisse esta ambivalência numa tradução portuguesa.

Ricardo Llamas cunhou a expressão teoria torcida em espanhol, mas o termo não vingou (até porque me parece mais uma tradução de twisted do que de queer). A este propósito, João Silvério Trevisan diz aqui o seguinte: «Há um livro em espanhol sobre teoria queer, do Ricardo Llamas. O termo foi adaptado para ?teoria torcida?: ele leva em consideração a raiz latina, pois supõe que o queer seja algo distorcido. Para mim isso simplesmente dá na idéia portuguesa de desvio/desviante. Uso bastante essa terminologia no meu livro Devassos no Paraíso. Aí, falo muito do Brasil como o ?país do desvio?, em várias áreas ? abrangendo no desvio até mesmo o carnaval e sua profusão de máscaras (em sentido restrito e lato). Penso que se você faz questão da tradução, o melhor seria algo como ?teoria do desvio? ou ?teoria desviante? ou ?teoria desviada?. Não se esqueça que um dos termos populares para homossexuais no Brasil é transviado ou desviado. Eu suspeito até que o termo ?viado? seja uma corruptela desses dois termos. Não por acaso, já ouvi gente traduzir teoria queer para ?teoria viada?, que também acho aceitável em princípio, apesar das outras conotações que não são meramente transgressivas, mas implicam em assumir o lado pejorativo do termo. E nunca sei se isso é totalmente positivo. (Mensagem eletrônica de 20 de julho de 2001)»

De facto, "teoria viada" é sedutor. Mas não funciona (ainda) em Portugal, por razões dialectais. Já teoria desviada poderia servir tanto para o Brasil como para Portugal, mantendo a alusão ao brasileiro "viado". A minha primeira inclinação tradutora foi justamente para o campo semântico do "desvio", pois acho que ele não é marcado apenas pela estigmatização; também contém elementos de contestação (desviar-se do caminho como atitude contestatária)

Enquanto substantivo, já se sabe o que quer dizer em inglês. Mas queer também é verbo, o que é sedutor (por evocar acção): expose, endanger, peril, thwart, spoil, scotch, foil, cross, frustrate, baffle, bilk... Enquanto adjectivo, significa curious, funny, odd, peculiar, rum, rummy, singular, fishy, funny, shady, suspect, suspicious.

Saíndo do inglês, em espanhol (e para lá da proposta de Llamas), queer é traduzido como extraño/a, raro/a ou excéntrico/a. Em francês, como curieux (étrange, singulier, étonnant), bizarre, suspect, inquiétant. Em português, o Porto Editora dá-nos: estranho, esquisito, fora do vulgar, excêntrico, singular, original, suspeito, de carácter duvidoso, indisposto, adoentado, esquisito, tonto, homossexual. Como forma verbal, estragar, escangalhar, desconcertar, transtornar, prejudicar, indispor.

Todo um campo de possibilidades engraçadas se abre, então: teoria desviada, teoria estranha, teoria esquisita, teoria excêntrica, teoria suspeita, teoria indisposta, teoria do desconcerto, teoria desconcertante, teoria transtornada... "Teoria excêntrica", por também referir algo que se pratica "fora do centro", e "teoria desviada", pelas razões acima expostas, seriam as minhas traduções favoritas.

Aceitam-se sugestões/votações.

mva | 18:09|