OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


16.1.06  

O fim da História



«Cavaco Silva não está disponível para participar num debate com os outros cinco candidatos à Presidência da República, que teria lugar esta sexta-feira, nas instalações da Rádio Difusão Portuguesa (RDP), "por motivos de agenda"» (Público)

Cavaco prossegue a sua estratégia. Não se trata apenas de não falar. Trata-se de "dizer" que já é presidente, que os outros não merecem conversar com ele, que os outros estão noutro campeonato. Que ao dizer isto está a desrespeitar os eleitores e a democracia é algo que não o incomoda. Pior: é algo que não parece incomodar a maioria do eleitorado.

Vários estudiosos do salazarismo já o disseram: o sucesso de Salazar deveu-se em grande medida à sua colagem às estruturas profundas do país. Não quis entrar em vanguardismos revolucionários de tipo fascista. O paroquialismo ruralista, católico, mariano, isolacionista e proteccionista do Botas batia certo com as expectativas de um povo a viver em ancien régime. Esperto como um cavaco (não existe a expressão?), manteve-se caladinho e quieto e frugal e poupadinho e casto. Cavaco actualiza isto: o seu silêncio, a sua "autoridade", o seu desprezo pelas regras do debate democrático batem certo com a nova alienação, esta espécie de salazarismo pós-moderno em que vivemos.

Se esta criatura ganhar, a direita vai recompor-se através da vitória política da conquista da presidência. Vai recompor-se ao nível simbólico, o mais decisivo de todos. E o que sobra de esquerda em Sócrates desvanecer-se-á em menos tempo do que demora a surgir um novo desempregado, uma nova privatização na saúde, uma nova escapadela aos impostos, uma nova conta off-shore, uma nova mulher julgada por aborto, um novo ataque ao ambiente e ao urbanismo, uma nova vítima da homofobia, uma nova sinecura numa instituição com participação do estado, um novo imigrante numa gaiola de aeroporto, um novo avanço do patriarcado (o genuíno e o com P grande, da ICAR), uma nova participação num ataque militar dos EUA, e por aí fora até ao proclamado fim da História.

A não ser que... A não ser que as dezenas de milhar de indecisos e quase-abstencionistas da esquerda - ou apenas de entre quem acha que a democracia é o pior sistema à excepção de todos os outros, como dizia o Churchill e canta o Sérgio Godinho - se mobilizem em massa no dia 22.

PS: Lenny, o "boneco" é tão antigo (eighties, Vila Nova de Cerveira...) que até a assinatura era outra...

mva | 19:17|