OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


9.1.06  

No meu país

É um daqueles dias de inverno à portuguesa: árvores despidas, sim, mas a terra coberta de verde e azedas. Cobre tudo isto um céu azul frio. Entra-se em Queluz pelo Palácio com o mesmo nome; em frente a ele umas casitas que ali vegetam há décadas. Há uma ruralidade que se mantém ou definha, não se sabe, à beira duma auto-estrada. A escassas centenas de metros, palácio e casas rurais dão lugar a prédios de subúrbio. O salão dos bombeiros faz lembrar os salões de bombeiros de todas as terras do portugal "profundo" (como se este aqui fosse de algum modo "superficial", quando é nestes aquis que vive a maior parte da gente). O salão dos bombeiros é feito daquela arquitectura espontânea que os arquitectos não gostam de chamar arquitectura. Atravessando as portas de alumínio, gloriosa invenção nacional, o corpo reaje ao fenómeno local de sentir mais frio no interior do que no exterior. Outra memória do meu país. No bar, os cachecóis do Benfica, Sporting, Porto e Belenenses fazem a geografia simbólica da pátria e das suas tribos. Alguém colocou o cachecol da selecção nacional bem ao centro - uma herança do Euro 2004. Passam inanidades numa televisão, homens de idade indefinida semi-sentam-se e semi-deitam-se em cadeiras de café, entretendo os dedos com os dispensadores de guardanapos com nomes como Coca-Cola ou Super-Bock. No andar de cima, aos poucos vão-se juntando as pessoas que vêm para o comício da candidatura do Francisco Louçã. Falamos de política, do passado, do presente e do futuro, e falamos a contrapelo dos "meios de comunicação social" e das "empresas de sondagens". Não somos nem heróis, nem mais puros nem mais conscientes. Apenas vivemos segundo ideias de política, de esquerda e de direita e por aí fora, ideias com as quais cada vez menos gente vive. A meio falha a luz. É reposta. Falha de novo. É reposta. Acabamos ao fim de uma hora e descemos as escadas de mármore (ah, o mármore, outra memória sensorial do meu país). Cá fora escurece sobre o verde e as azedas e os subúrbios e o palácio e as casitas rurais e a auto-estrada. "Então vamos ter o Cavaco outra vez, é?" "Pois é, parece que sim".

mva | 11:19|