OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


19.1.06  

Com senso?



A palavra "consenso" está a ganhar uma irritante importância na cultura portuguesa. Qualquer dia este é o país da saudade e... do consenso. A expressão é, quanto a mim, uma típica palavra ventríloqua. Através de "consenso" está a dizer-se algo que não "consenso", algo que envergonha e que não se tem coragem de defender explicitamente. Esse algo é o "silêncio". Vejamos.

Estava eu a desabafar sobre isto com uma aluna minha americana e ela disse que "consenso" lhe fazia lembrar os Quakers (a mim fazia-me lembrar o Cavaco, e entre estas duas "lembranças" está todo um oceano...). Entre aquela congregação as decisões são tomadas por consenso, o que significa isto: se houver nem que seja um membro que não concorde com uma proposta, ela não avança, até que ele ou ela concorde, dias ou semanas e reuniões mais tarde.

Mas não é preciso ir tão longe. "Consenso", para mim, é algo a que se chega depois de vários processos, concomitantes ou alternativos, de tipos potencialmente diferentes: o confronto; a negociação; o diálogo; etc. Todos eles são muito mal-vistos e mal praticados em Portugal, onde as pessoas tendem a não ouvir-se nas conversas, tendem a não exprimir ideias e convicções claras, tendem a obedecer, a satisfazer os superiores, ou a seguir o lema "o que é que queres, as coisas são mesmo assim". (E quando se revoltam, é isso mesmo, revoltam-se - puff, explodi, pronto já passou - não se revolucionam). Em suma: "consenso" é sem dúvida das coisas mais difíceis de alcançar entre nós, pela simples razão de nem sequer temos as ferramentas e as metodologias para o construir.

Quando se proclama a necessidade de consenso, quando se diz que algo (um projecto de investigação, um tema para uma conferência, uma ideia para um curso, um tópico para um programa político, uma proposta de lei, etc) "não é consensual" (quel horreur!) e por isso não deve ser discutido, o que se está a dizer é que tudo deve ficar na mesma, que há áreas tabu, e que a fonte do dito consenso deve ser a tradição, o hábito, a inércia ou, pior ainda, a autoridade.

Aquilo de que o "consenso" português fala é do silêncio.

mva | 17:35|