A iniciativa do Luís Grave Rodrigues é óptima. E a disponibilidade e coragem do casal de mulheres que deseja casar-se é de aplaudir! É mais um passo, com outra táctica, na luta pela igualdade no acesso ao casamento civil. A ILGA-Portugal, por exemplo, tem vindo a recolher assinaturas para uma petição à AR; e organizou, junto com uma instituição universitária, um excelente seminário sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Estas iniciativas - como todas as iniciativas do movimento LGBT ,que não só a ILGA - têm sido conseguidas com muito esforço e com enormes dificuldades do ponto de vista dos recursos humanos. Isto nota-se ainda mais quando há necessidade de falar para os jornais, de ir às TVs, de mobilizar pessoas que dêem o seu testemunho sobre o desejo de casar, a homoparentalidade, as suas vidas como gays e lésbicas, etc. Em Portugal, nem no movimento LGBT organizado existe mais do que uma mão-cheia de pessoas que possam/queiram dar a cara.
Há excepções: pessoas que dão a cara pagando ou não o "preço" por isso. Mas num ambiente reprimido e, para mais, de generalizada ausência de participação cívica, o "dar a cara" é, infelizmente, cada vez mais algo feito por quem não tem nada a perder. Espero sinceramente que não se repitam situações como a do "casamento" encenado por um cantor rasca para uma TV. Nessas situações, os protagonistas ganham uns tostões e cinco minutos de notoriedade, e perdemos nós tod@s anos de igualdade e respeito. Que fique claro: não faço ideia quem são as mulheres que irão à Conservatória na quarta-feira, e apoiarei a sua demanda de todas as maneiras que me forem possíveis. Mas sinto-me como um gato escaldado.
Na quarta-feira, quando o casal de mulheres for à Conservatória, estarão presentes uma série de pessoas de várias organizações do movimento LGBT, dando o seu apoio. A mobilização tem circulado nos e-mails. A intenção é boa, o entusiasmo também, mas temo o pior. O "pior", para mim, seria o efeito televisivo de mostrar uma manifestação de meia-dúzia de pessoas, transmitindo uma imagem de marginalidade e, na melhor das hipóteses, curiosidade exótica. Temo a morte na praia. Espero que quem acompanhar as duas mulheres o faça como um grupo de amigos que as acompanha.
Tivesse havido genuíno entusiasmo e participação de todo o movimento LGBT na iniciativa da petição (que, pesar disso, resultou) e talvez neste momento já existisse uma vaga de fundo que possibilitasse não só uma concentração de jeito, como o surgimento de mais casais que participassem na iniciativa do Luís. Tivesse havido menos catolicismo recalcado, menos radicalismo esquerdista, e menos teoria queer mal enjorgada nas "dúvidas" e "hesitações" face à reivindicação do casamento, e talvez na quarta-feira fosse de facto ganhador ir - muita gente - à Conservatória apoiar o casal. Infelizmente não houve. Assim como, infelizmente, não houve coordenação para que resulte bem aquilo que é, quer se goste quer não, um acto político. Nestas coisas não interessa apenas marcar posição, interessa ter estratégias ganhadoras. Espero que em breve haja mais casais a quererem confrontar a lei e que a via judicial seja vitoriosa - sobretudo se a legislativa não o for.
A Teresa e a Lena (não sei os seus sobrenomes), se me lerem, podem contar comigo para tudo o que tenha a ver com a defesa do direito à igualdade no acesso ao casamento.
(Não deveria ser preciso dizê-lo, mas aqui vai: a minha posição é absolutamente pessoal e nada tem a ver com as associações a que pertenço)
PS: A Comissão de Saúde do Parlamento vai fazer audições sobre a legislação da reprodução medicamente assistida. A lista de convidados inclui "especialistas", associações de planeamento familiar, associações de famílias (?), igrejas. Não inclui organizações dos direitos das mulheres ou LGBT. A desculpa já se antevê: "Ai, mas é que isto é legislação sobre o problema clínico da infertilidade, não sobre as escolhas reprodutivas". Bela democracia. Pois bem: não sei se existe um emoticon para um gesto feio, mas imaginem-no...