OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


29.12.05  

Vale a pena ler no Público de hoje

José Neves:

«(...) O patriotismo é sempre uma arma do poder - mesmo quando utilizado pelos que se pretendam representantes dos fracos. Alegre pode-nos confortar citando Cunhal e sendo comparado a Aragon - o problema mantém-se: é que, quando o Partido Comunista Francês de Aragon mobilizou o nacionalismo patriótico contra o nacionalismo fascista, nos anos 30, ele negou os direitos fundamentais dos resistentes argelinos; é que, quando o Partido Comunista Português assume o hino nacional, ele desconsidera o direito dos trabalhadores imigrantes à luta de classes.(...)»

Augusto M. Seabra:
«(...) Agora, depois da ascensão ao poder dos conservadores do PiS (Direito e Justiça) dos gémeos Kaczinsky, com o apoio da ultradireitista Liga das Famílias Polacas e dos populistas da Autodefesa, ambos marcadamente nacionalistas, há um verdadeiro desafio à União. O obsceno paralelismo entre a interrupção voluntária da gravidez e Auschwitz e a homofobia militante e institucionalizada são outros dois traços, de resto num quadro geral que se alarga à Lituânia, Letónia e Eslováquia - e é tanto mais preocupante quanto o bloqueio do tratado constitucional implicou a Carta dos Direitos Fundamentais, a qual nomeadamente garante a "não-discriminação", incluindo a da "orientação sexual". (...)»

Pacheco Pereira:

«(...) A solidez teórica de Ratzinger, solidez não apenas teológica, mas filosófica e cultural num sentido mais geral, o seu longo contacto com o meio dos intelectuais europeus, conhecendo as suas polémicas e quer as suas interrogações, quer as suas modas, está a dar frutos. Ratzinger está a colocar a reflexão cristã, gerada no cume do poder eclesial, que é por excelência o papado, no centro do debate público, de onde estava há muitos anos afastada. Ou, numa fórmula mais moderada, está a torná-la aceitável como objecto de discussão intelectual, o que é uma verdadeira mudança nos costumes europeus e americanos recentes. Este processo é interessante para a história do movimento cultural europeu e, penso, está apenas no seu início. O nome de Bento XVI, ou mais provavelmente para já de Ratzinger, vai-se tornar citado e citável, em círculos onde nunca o foi o de João Paulo II e dos seus predecessores desde o século XIX. (...)»

Ou de como, em tempo de presidenciais, interessa sim discutir "estas coisas" - nação, "pátria", direitos, Europa, "civilização". NO nosso espaço público mediático, se não fossem dois ou três artigos de jornal por semana e dois ou três posts em dois ou três blogs, e Portugal estaria verdadeiramente desintelectualizado*.

*o que ainda torna mais mais chocante que seja preciso pagar para aceder aos textos online...

mva | 11:52|