OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


13.12.05  

Sobre "argumentos" que irritantemente oiço por aí...

Não me admiraria nada se a maioria dos homens que têm sexo com homens - ou que "namoram" mais ou menos com uma identidade gay - fosse contra o casamento entre pessoas dos mesmo sexo, contra a adopção ou mesmo contra políticas antidiscriminatórias ou de promoção da diversidade. Não me admiraria e, curiosamente, não consideraria muito relevante. Porquê? Em primeiro lugar, porque a maioria desses homens o que quer é mesmo continuar a beneficiar do capital de masculinidade garantido pela imagem pública de homens casados, com filhos, integrados em estruturas de prestígio e reconhecimento ditas normais. Em segundo lugar, porque o seu próprio erotismo se calhar depende da contradição e da ocultação; não quereriam de modo algum ser desafiados por (e confrontados com) uma normalização social da homossexualidade. E por fim - e este acho ser o argumento politicamente relevante - porque em rigor não é preciso que os homens que fazem sexo com outros homens ou mesmo os homossexuais apoiem medidas de igualdade e anti-homofobia; o que é preciso é que a sociedade democrática e os seus representantes e garantes reconheçam que mais igualdade e menos discriminação são coisas que decorrem normalmente da democracia. (Quantos negros se organizaram e protestaram para que o racismo fosse considerado ilícito em Portugal? Quantas mulheres se organizaram e protestaram para terem o direito ao voto em Portugal?). É por isto também que os direitos relacionados com a igualdade e o fim da discriminação pela orientação sexual nunca deverão ser assunto para referendo. Nem "clamor social" nem "consulta à sociedade" são necessários para implementar a igualdade prevista na constituição democrática.

PS: o meu exemplo é masculino apenas porque outros factores, de género, se cruzam no caso dasmulheres que têm sexo com mulheres ou nas que "namoram" mais ou menos com uma identidade lésbica.

mva | 22:38|