1.12.05
A funcionária que dá corda à máquina

Entrevista a Francisco Louçã na RTP1. Entrevistadora: a funcionária Judite de Sousa. A funcionária que termina a entrevista despedindo-se do dr. Louçã e anunciando que amanhã entrevistará o professor Cavaco Silva. Pouco interessam estes honoríficos idiotas que se usam ainda entre nós. Ou a forma errada como são usados - se quisermos respeitar o próprio sistema. Curioso, sim, é verificar como uma jornalista - a funcionária Judite de Sousa - é prisioneira da máquina cultural que define alguns como mais merecedores do que outros dos honoríficos que ela - e a máquina - acham importantes. Judite de Sousa - em rigor todas e todos @s judites - mais do que prisioneira da máquina, faz a máquina.
Mas o funcionamento da funcionária não se fica por aqui. Ao longo de toda a entrevista (de qualquer entrevista, a Louçã ou outro) só fez perguntas que reproduzem a máquina cultural que cria um certo entendimento da política: a política como jogozinho de votos e de partidos e de disputas e turrices entre candidatos; sobre se FL desiste ou não; sobre se FL disputa com o PCP ou não; sobre se FL fica contente com x por cento ou triste com menos que isso. Não fez uma única pergunta sobre quem é o entrevistado; sobre o que pensa acerca de assuntos políticos; sobre assuntos económicos; sobre assuntos internacionais; sobre assuntos de valores, ética, ou moralidade; sobre, em suma, a sua visão do mundo, questão fundamental na escolha de um presidente sem poderes executivos.
É isto uma grande entrevistadora dum grande canal de TV? Não. Isto é uma funcionária da máquina do senso comum. Justamente o tipo de maquinaria que produz cavacos silvas.
mva |
21:46| 
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