21.12.05
Epifania
Maria João Avilez surgiu-me hoje na rádio como uma epifania (bem a propósito para a época). Ao mesmo tempo recordou-me que o ancien régime (no sentido de "História das Mentalidades" do termo) sobrevive, e explicou-me em que consiste o mistério do Natal. Há muito tempo que acho que existe um modelo ? chamemos-lhe "hegemónico" - do que é/deve ser o Natal, e que milhões de pessoas tentam desesperadamente atingi-lo.
Não conseguem.
Daí a sensação de depressão e melancolia da "quadra". Mas há quem consiga. Há quem disponha dos recursos - de vários tipos - para atingir o modelo em pleno. Ao descrever que pelas bandas da sua família tinha nascido uma criança (like we care...), MJA desenvolveu o mote da criança-enquanto-menino-jesus. Graças a tão criativa prosa, fui juntando os fios a várias meadas soltas nos últimos anos:
1) para ter um Natal a sério convém ser de boas famílias (conceito vaguíssimo nos dias que correm e que inclui os que as boas famílias não acham serem de boas famílias), uma coisa que vai de si e não se explica mas percebe-se, sei lá, no sotaque... 2) convém que estas sejam grandes (acho que agora diz-se "numerosas") - e normalmente as duas coisas vão juntas. 3) convém que haja um local sagrado, uma espécie de raiz da tribo, normalmente a casa de um ancião que funciona como patriarca ou matriarca, mesmo que não lhe apeteça nada, mesmo que a sua maior fonte de alegria seja apalpar a criada ou o jardineiro e não propriamente a maçada do natal 4) convém que toda a grande e nobre família se reúna no chão sagrado; fotos de família, muitas, e um ou outro óleo 5) convém ser católico, isto é, ir mesmo à missa do Galo. Não tem nada, mas mesmo nada, a ver com usar ou não pílulas e camisinhas e assim 6) convém que a grande família não esteja muito baralhada por divórcios e recomposições (e se houver um gayzito ou uma lesbicazita, por favor que tenha o bom senso de aparecer sozinh@ na consoada) 7) last but no least, convém mesmo ter dinheiro para investir no evento e nas prendas. Mas não se fala disso - tem-se.
Com estes capitais e condições asseguradas pode então proceder-se ao passo seguinte que consiste em dizer que o consumismo não interessa para nada (curioso argumento, visto que para ser de uma boa, grande e rica família normalmente é preciso estar de algum modo associado ao comércio, à representação de multinacionais ou à banca que empresta dinheiro aos que desesperadamente querem emular o natal hegemónico); e em dizer que o natal dos pobres é que é digno e bonito; e que devia ser natal todos os dias (as duas últimas são giras: o "dignidade" do natal dos pobres confirma a centralidade do natal dos ricos, que não precisa de ser qualificado de "digno". É-o, por essência e inerência; e o Natal "devia" ser todos os dias porque, efectivamente, é-o para quem diz o sound byte).
Votos de santo natal para tod@s @s que acham genuinamente que é o melhor dia do ano - todos diferentes, todos iguais, não é assim?
mva |
19:10| 
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