OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


21.12.05  

Epifania

Maria João Avilez surgiu-me hoje na rádio como uma epifania (bem a propósito para a época). Ao mesmo tempo recordou-me que o ancien régime (no sentido de "História das Mentalidades" do termo) sobrevive, e explicou-me em que consiste o mistério do Natal. Há muito tempo que acho que existe um modelo ? chamemos-lhe "hegemónico" - do que é/deve ser o Natal, e que milhões de pessoas tentam desesperadamente atingi-lo.

Não conseguem.

Daí a sensação de depressão e melancolia da "quadra". Mas há quem consiga. Há quem disponha dos recursos - de vários tipos - para atingir o modelo em pleno. Ao descrever que pelas bandas da sua família tinha nascido uma criança (like we care...), MJA desenvolveu o mote da criança-enquanto-menino-jesus. Graças a tão criativa prosa, fui juntando os fios a várias meadas soltas nos últimos anos:

1) para ter um Natal a sério convém ser de boas famílias (conceito vaguíssimo nos dias que correm e que inclui os que as boas famílias não acham serem de boas famílias), uma coisa que vai de si e não se explica mas percebe-se, sei lá, no sotaque...
2) convém que estas sejam grandes (acho que agora diz-se "numerosas") - e normalmente as duas coisas vão juntas.
3) convém que haja um local sagrado, uma espécie de raiz da tribo, normalmente a casa de um ancião que funciona como patriarca ou matriarca, mesmo que não lhe apeteça nada, mesmo que a sua maior fonte de alegria seja apalpar a criada ou o jardineiro e não propriamente a maçada do natal
4) convém que toda a grande e nobre família se reúna no chão sagrado; fotos de família, muitas, e um ou outro óleo
5) convém ser católico, isto é, ir mesmo à missa do Galo. Não tem nada, mas mesmo nada, a ver com usar ou não pílulas e camisinhas e assim
6) convém que a grande família não esteja muito baralhada por divórcios e recomposições (e se houver um gayzito ou uma lesbicazita, por favor que tenha o bom senso de aparecer sozinh@ na consoada)
7) last but no least, convém mesmo ter dinheiro para investir no evento e nas prendas. Mas não se fala disso - tem-se.

Com estes capitais e condições asseguradas pode então proceder-se ao passo seguinte que consiste em dizer que o consumismo não interessa para nada (curioso argumento, visto que para ser de uma boa, grande e rica família normalmente é preciso estar de algum modo associado ao comércio, à representação de multinacionais ou à banca que empresta dinheiro aos que desesperadamente querem emular o natal hegemónico); e em dizer que o natal dos pobres é que é digno e bonito; e que devia ser natal todos os dias (as duas últimas são giras: o "dignidade" do natal dos pobres confirma a centralidade do natal dos ricos, que não precisa de ser qualificado de "digno". É-o, por essência e inerência; e o Natal "devia" ser todos os dias porque, efectivamente, é-o para quem diz o sound byte).

Votos de santo natal para tod@s @s que acham genuinamente que é o melhor dia do ano - todos diferentes, todos iguais, não é assim?

mva | 19:10|