OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


17.12.05  

Alegre Cavaqueira, episódio VII

Louçã teve ontem o seu último debate. Como sou seu apoiante - e para mais acompanhei-o ontem - o meu comentário é necessária e assumidamente enviesado. Gostei. Gostei até mais do que é normal. Louçã não podia (nem devia) tentar igualar a bonomia-de-sofá de Soares, que nisso é imbatível; e não podia cair no erro de inverter o paternalismo de Soares esmagando-o com energia cerebral - seria feio. Conseguiu o ponto de equilíbrio. E conseguiu-o em grande medida porque os dois candidatos se entendem: sabem situar-se no mesmo campo largo da esquerda e sabem demarcar posições. Foi o único debate de jeito nesta série de debates.

Duas notas negativas em relação a Soares. A primeira diz respeito ao uso do estafado argumento das "diferenças culturais" em relação ao respeito pelos direitos humanos. Esse é exactamente o argumento que o governo da China usa - e usa-o com um cinismo flagrante. A segunda diz respeito ao recurso à acusação de "moralismo" em Louçã. A referência - de Soares e de muita gente - é ao "tom". Mas o que interessa são os conteúdos. E é mais "moralista" (no sentido de defensor da "moral vigente") quem diz supostas evidências de senso-comum, do que quem afirma aquilo que pensa. Os silêncios, as platitudes e tiradas ideológicas mascaradas de bom-senso de um Cavaco Silva são bem mais perigosas do que as linhas de demarcação que Louçã afirma enfaticamente.

mva | 11:47|