OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


15.12.05  

Alegre cavaqueira, episódio VI

Jerónimo-Louçã. Um debate da esquerda para a esquerda, com convocação do passado e tudo. Europa, euro, socialismo "real" - eis as grandes e importantes diferenças. Mas a diferença cultural mais notória é a que opõe o PC "patriótico" (palavra de Jerónimo; e que vai curiosamente junto com a repetição da retórica do país "aberto ao mundo", meaning o país dos descobrimentos) a um BE mais europeísta. E isto significa mais do que questões geo-estratégicas.

No momento da discussão do casamento entre homossexuais percebem-se as diferenças: Louçã repete o argumento do artigo 13º da Constituição e da necessidade de os direitos civis serem para todos; Jerónimo fala de um "processo" necessário, dependente do convencimento da sociedade pelo movimento LGBT. Para Louçã é "cumpra-se a Constituição", para Jerónimo é mais "ainda não se ouviu a sociedade aceitar/pedir". Mas há semelhanças, da ordem da hegemonia cultural e que estravazam até a esquerda e as suas divisões internas: nenhum dos dois fala da importância dessa conquista para toda a sociedade. Nenhum dos dois usa a palavra "homossexual" ou "gay e lésbica". Referem-se "ao assunto". E rapidamente se passa a outro. As diferenças são significativas, note-se - e estão na base das razões do meu apoio à candidatura de Louçã; mas as semelhanças são um copo (não um balde, é certo) de água fria.

Uma palavra que descreve bem Portugal: lento.

mva | 23:10|