24.11.05
A sacristia como armário
Como era de esperar, alguns comentadores não perderam a oportunidade para turvar a distinção entre homossexualidade e "pedofilia", a propósito da decisão do Vaticano em excluir homossexuais do sacerdócio. Como também era de esperar, muita gente usou, como suposto contra-argumento, a ideia feita de que há muitos homossexuais armariados que escolhem o sacerdócio. Tudo isto é muito turvo, repito, e deveria ser esclarecido.
Um dos efeitos de homofobia interiorizada é ficar no armário. Mas não só, que isso pode ser simples escolha. Há uma homofobia interiorizada que leva a ficar no armário sentindo verdadeira culpa; esse sentimento de culpa e pecado existe sobretudo se essa internalização da homofobia acontecer no quadro da internalização de um certo tipo de catolicismo. Nenhum homossexual homofóbico vai para padre só por o ser. É preciso que seja católico à partida, isto é, que tenha uma mentalidade e valores estruturados em torno dum certo tipo de catolicismo.
(Quanto à pedofilia - que afecta tanto padres homo como heterossexuais - apenas uma pergunta: qual a relação entre a formação de um desejo erótico por crianças, e uma cultura - nomeadamente católica - que discursa e representa sistematicamente a criança como pura, angelical e exemplar?)
mva |
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