OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


22.11.05  

À laia de resumo dos últimos dias

1. O Fórum do Casamento ultrapassou as expectativas. Estiveram presentes pessoas "gradas" das ciências sociais em Portugal que, não trabalhando directamente sobre o assunto, perceberam claramente quanto ele ajuda a perceber melhor os desafios contemporâneos das CS na área do parentesco, família, género e similares; estiveram presentes pessoas da área do Direito, o que permitiu um raro diálogo entre áreas infelizmente demasiado afastadas. O facto de o Centro de Estudos de Antropologia Social do ISCTE e a Associação ILGA-Portugal se terem juntado nesta iniciativa augura muito de bom sobre a necessária relação entre ciência e sociedade. Quanto às ausências - académicas dentro da área (e da "casa"), partidárias, associativas? - cada um sabe de si.

2. É com iniciativas destas que também se faz a relação entre universidade e comunidade. E o ISCTE, ao albergar esta iniciativa, cumpriu o seu dever como universidade pública. Bem menos felizes são os pequenos comentários e indirectas que se vão ouvindo - ou de que se vai ouvindo falar. Há uma pequena, subterrânea e torpe homofobiazinha que permeia até os meios que se consideram liberais, progressistas e de pensamento livre. Há medos e fantasmas sobre o "prestígio", sobre o efeito nas "carreiras", etc. Como sempre, não tenho pachorra e a caravana vai alegremente seguindo. A pobre gente sofre muito com vários medos de ridículo e vergonhas sociais - e eu não tenho estofo nem de psicanalista nem de padre para as "compreender".

3. Algo de semelhante, aliás, com a imprensa. As revistas cor-de-rosa estiveram presentes na entrega dos prémios Arco-Íris pela Associação ILGA-Portugal. Porquê? Não para verem o actor da novela da TVI ou os The Gift, mas para fotografarem a jornalista Fernanda Câncio, não enquanto jornalista, mas enquanto suposta namorada do primeiro-ministro. A homofobiazinha reinante acha que isso da sexualidade deve ser mantido no "privado"; já não acha o mesmo quanto às relações amorosas heterossexuais, claro... Assim como uma mulher profissional e com consciência cívica é menos importante do que o homem com quem eventualmente namore.

4. No regresso do Uruguai e Argentina, percebi que o incidente do Beijo de Gaia (assim poderia ficar conhecido para a história), deu pano para mangas. Houve coisas boas, por exemplo a reacção do presidente das Associações de Pais, absolutamente digna, moderna e democrática. Mas houve coisas como a prosa de Miguel Sousa Tavares - sobre o assunto e sobre o artº 175 do Código Penal. Que dizer? A partir de um certo ponto, ou as pessoas são francamente burras ou fazem-se burras para dizerem por outras palavras o que não se atrevem a dizer directamente. MST é apenas mais um afloramento duma espécie de desejo subterrâneo que percorre tanto os que "mandam bocas" numa universidade, como as revistas cor-de-rosa; tanto os que não têm paciência para as reivindicações LGBT, como os que não têm paciência para as "questões de mulheres" (e é comum as duas impaciências irem juntas): o desejo de que tudo "torne a ser como dantes", em que não era preciso estar consciente da existência de formas de exclusão e marginalização que não as impossíveis de não ver (como a pobreza), em que o mundo pertencia aos homens hetero e o resto eram assuntos "privados" ou coisas em que "não se metia a colher". Era um mundo mais fácil, mais tranquilo, sem vigilância da linguagem, sem gente a dizer que se sente insultada pelas opiniões dos "meninos" e dos "senhores doutores". Era um mundo pacífico - para os poucos privilegiados por essa paz podre. Bem, tirem os cavalinhos (os burrinhos?) da chuva: o mundo mudou.

mva | 14:57|