OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


26.11.05  

A "educação dos (para os) afectos"

Vezes em conta, em debates sobre educação sexual, oiço isto: "o que queremos mesmo é uma educação dos (ou para) os afectos". Não percebo, confesso. É assim como se também a educação física pudesse ser uma educação para os afectos e depois cada um fazia desportos sozinho.Gostava de fazer a genealogia da expressão. Donde vem? De alguma escola ou autor de alguma psicologia? De alguma escola ou autor de alguma ciência da educação? Ou será que - tremo - vem de uma igreja? A expressão contaminou muita gente, da "direita" à "esquerda". E o que parece querer dizer é que não há uma coisa chamada sexo e sexualidade, mas sim uma nebulosa chamada "afectos". Isto obscurece mais do que clarifica. Propicia os eufemismos. Evita falar de sexo. Perpetua os tabus. Afectos há muitos, milhares, milhões. Pelos pais, pelos amigos, pleos colegas, pelos namorados, pela humanidade, pelos animais... O sexo e a sexualidade podem ser uma expressão de afecto. Mas nem sempre o são. Nem têm que o ser.

A melhor coisa que me aconteceu aí pelos 12, 13 anos, foi o meu irmão mais velho ter-me oferecido um livro de educação sexual que continha três coisas: uma explicação biológica da maturação e funcionamento sexuais no sentido estrito; uma sistematização do sexo, apresentada na base do prazer e do bem-estar; e, claro, um lado ético sobre a autonomia das pessoas e sobre a normalidade das variações sexuais. Nada me fez tão bem como isso. Os afectos já os havia descoberto e ainda hoje descubro, nas relações de todos os dias com as pessoas de todos os dias.

mva | 18:48|