OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


9.11.05  

A cedilha e o til.



As esquerdas não conseguiram - ou não quiseram, ou não puderam - encontrar um candidato único. A ter havido, deveria ter sido alguém vindo de fora dos aparelhos partidários, de modo a ultrapassar divergências e a estabelecer uma plataforma mobilizadora. Não aconteceu e provavelmente não é possível no actual estado da política e da esquerda. De qualquer modo, uma tal candidatura estaria sempre marcada pela ideia defensiva de oposição a Cavaco, mais do que por qualquer ideia propositiva e crítica sobre o estado da democracia portuguesa. A atracção por um imaginário passado "antes do descalabro" - a magistratura de influência de Soares ou o "republicanismo" de Alegre - parece-me, infelizmente, uma reacção simétrica à atracção, sentida pela direita, por um passado cavaquista pré-Santanas Lopes.

É neste quadro que os partidos mais pequenos da esquerda optaram por apresentar candidaturas próprias. Não percebo porque causa tanto furor a ideia de que possam estar a "medir forças" ou a quererem ocupar "espaço mediático". Não é isso mesmo a política? A responsabilidade por uma eventual vitória de Cavaco dever-se-á a todos os candidatos da esquerda e, sobretudo, aos eleitores. Não é isso mesmo a democracia? Interessa-me, isso sim, que nas eleições presidenciais haja candidatos que apresentem a sua visão do mundo, do estado da democracia portuguesa, e do que gostariam de ver acontecer para que a República seja sustentável. Com opções claras, e não com platitudes. As eleições presidenciais são um terreno excelente para isso: trata-se do único cargo unipessoal e, mesmo quando apoiadas claramente por partidos, as candidaturas são as candidaturas daquelas pessoas, dos seus percursos e da sua maneira de pensar e ver a sociedade.

Muitas pessoas poderão estranhar que apoie a candidatura de Francisco Louçã. As minhas críticas e hesitações em relação a várias posições do Bloco poderiam indiciar outras opções. Não apoio Louçã por disciplina partidária. Os partidos não são nem devem ser igrejas, não são nem devem ser grupos de amigos geridos pela lealdade absoluta. E no caso do Bloco, exijo sempre que se cumpra o proclamado pluralismo e democracia interna. As minhas hesitações e quezílias têm mais a ver com um problema de mim comigo próprio - a questão de estar ou não num partido, e que é de uma ordem diferente do apoiar ou não uma candidatura presidencial. Acho simplesmente que a forma que Louçã tem de ver o estado da democracia e da República portuguesas é fundamentalmente justa e correcta; e que é necessário que seja ouvida; e que isso se mede em força e votos. É preciso que alguém fale do que se quer para o país, para lá do cerrar fileiras contra Cavaco e para lá de atitudes de refúgio em discursos vagos mas essencialmente coniventes com a forma como o país tem sido gerido.

O que mais gosto nas eleições presidenciais é o carácter simbólico de se estar a escolher uma figura que, por ser o ponto cimeiro da hierarquia política, possa representar a nossa visão do mundo e o nosso ideal de país (apesar de não ser possível, em nenhum caso, a concordância total e absoluta com tudo o que um candidato diga ou proponha). Quero que Louçã seja ouvido e seja votado. Desejo que mais pessoas se reconheçam na mistura entre um pensamento coerente e sustentado, por um lado, e a rebeldia, pelo outro. Entre a cedilha e o til. Sinais diacríticos que fazem toda a diferença.

mva | 09:59|