OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


4.11.05  

Apanhados no meio.

Em muitos países do chamado "terceiro mundo" existem ONGs e associações ligadas aos movimentos sociais que têm bastante força. Em parte isso deve-se à escala e gravidade dos problemas sociais que pretendem enfrentar. Mas a sua capacidade de acção deve-se em grande medida ao apoio financeiro e de formação que recebem de fundações e de congéneres de países mais ricos. Nestes, o associativismo ligado ao movimento social e as ONGs têm também bastante força, quer porque o voluntariado tem um forte ancoramento cultural (incluindo religioso...), quer porque o bem-estar económico permitiu já a profissionalização.

Em Portugal, estamos apanhados no meio. Claro que há gente que consegue pôr a mexer ONGs e associações; e é claro que se consegue ir arranjar fundos aqui e ali. E é certo que em tese basta três ou quatro pessoas com tempo e energia para pôr a funcionar em pleno um empreendimento destes. Mas em geral não é assim. O resultado é a vida pública interveniente ficar reduzida a tudo o que funciona à sombra dos dois estados: do propriamente dito, no caso dos partidos políticos; do quase-estado ICAR, no caso do associativismo de raiz católica.

Esta situação tende, além do mais, a criar as condições da sua própria reprodução, com a definição pelos partidos do que é legítimo ou não fazer-se em termos de movimento social, e com o reconhecimento público das iniciativas de raiz católica. Tudo o que esteja fora deste sistema não apanha nem uma nesga de sol para crescer; e quem quer aderir a coisas trabalhosas e pouco aceites?

Deixando de lado a hipótese de esperar por uma mudança social que pode demorar décadas, restam dois caminhos: o incentivo "iluminado" por parte dos poderes públicos e a abnegação de pessoas com consciência da necessidade de se envolverem. Aplique-se isto aos movimentos de consumidores, de vizinhos, de mulheres, de imigrantes, de gays e lésbicas, e perceberão o que estou a querer dizer. O voluntariado está exausto; as comunidades-alvo não aderem e resolvem (resolve cada um...) os problemas a la portoghese; e os poderes públicos assobiam para o ar, com receio do que possam pensar os sacerdotes - os de facto, e os "republicanos".

mva | 22:51|