4.11.05
Afinal como é?
José Manuel Fernandes - que, como todos os directores de jornais, emite juízos sobre tudo e mais alguma coisa, sem ser especialista em nada - acha que a violência dos últimos dias num subúrbio de Paris resulta da aplicação de ideias "politicamente correctas" à questão da imigração e à não promoção dos valores de cidadania que assegurariam a "integração". Acontece que a França é justamente o país (lembrem-se do caso do véu) onde há mais recusa da aceitação de lógicas que não sejam a do universalismo republicano. Afinal como é? É assim: o famigerado universalismo republicano à francesa pouco mais é do que uma retórica nacionalista (o universalismo republicano é a ideia de França, não é universal), equivalente local da retórica portuguesa da tolerância e do não-racismo do "secular encontro de culturas". Ambos servem para que os que se consideram "de dentro" se sintam bem consigo mesmos; de pouco servem para lidar com a sociedade em transformação e diversificação. Infelizmente. E em ambos os contextos - assim como nos que aplicam as mais variadas sortes de "multiculturalismo" - o problema repete-se e raramente é apenas um problema de discurso sobre a diversidade cultural: é, em grande medida, um problema de emprego, alojamento em guetos e perpetuação da desigualdade (agravada pela contradição flagrante com retóricas da diversidade). Não se trata de "desculpar" a violência (era o que mais faltava). Trata-se de de perceber que nunca alguém se sentirá semelhante se não perceber que pode também ser igual (em direitos, oportunidades e, então sim, deveres).
mva |
11:21| 
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