OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


7.10.05  

O problema da alface.



No noticiário da SIC Notícias a locutora introduz uma peça dizendo com o ar mais natural do mundo: "Carmona Rodrigues prepara-se para ser reconduzido à frente da Câmara de Lisboa". Esta pequena manipulação só é justificada mais adiante com os dados da sondagem que dão 11 pontos percentuais de avanço ao PSD. Acontece que outra sondagem dá um empate técnico PSD-PS; e outra ainda dá uma distância de 3 ou 4 pontos. Comum a todas elas é a grande percentagem de indecisos - essa, sim, a única notícia merecedora de atenção.

Os candidatos da oposição não estão isentos de culpa nesta consagração do senhor engenheiro Carmona Santana Rodrigues Lopes. Não insistiram o suficiente no facto de Carmona e Santana serem a mesma coisa. Tão-pouco terá sido por culpa dos jornalistas que no debate final na RTP 1 metade do tempo foi ocupado a discutir o inefável túnel do Marquês. Quanto a projectos de cidade, ficámos todos a ver passar faluas no Tejo.

O horto lisboeta gera muitas variedades de alface. Mas todas têm a mesma característica insípida. Verdes, vermelhas, portuguesas, francesas, frisadas, ou pré-lavadas em pacote, não conseguem deixar de ser alfaces. O azeite e o vinagre (mesmo o balsâmico) não as temperam o suficiente. E perante tanto vegetarianismo, o estômago do pobre cidadão carnívoro contorce-se de tédio e pessimismo.

Mas alguma coisa há que fazer - pois há que ir votar. Eu sei qual é a alface que não quero à frente da Câmara. Chama-se Carmona Rodrigues e concorre pelo PSD. E sei que quero o Bloco de Esquerda bem representado na Assembleia Municipal. Declarei a minha discordância com a decisão do Bloco em subscrever a candidatura de Sá Fernandes; e disse neste blog que não votaria em Carrilho.

Face às sondagens e às percentagens de indecisos, vejo-me obrigado a mudar de opinião. Engolirei o proverbial (enorme) sapo de votar no PS para a Câmara; votarei no Bloco de Esquerda para a Assembleia Municipal; e votarei em branco para a Assembleia de Freguesia porque já não moro no local onde ainda estou recenseado.

A não ser o voto no Bloco para a AM, faço tudo isto com um nó no estômago e muita desilusão. Daqui a quatro anos conversaremos.

mva | 14:19|