31.10.05
Deixar por um momento de olhar para o feio.
Aeroporto. O homem ao meu lado chegou de Kiev e ainda espera que a família de Lisboa o venha buscar. Quando chegam, o mais entusiasmado é um miúdo, dos seus 10 anos. Dirige-se logo ao que eu imagino ser o seu tio e dispara uma frase entusiasmada em ucraniano. Só identifico a palavra "Benfica", para mais pronunciada em português perfeito. Apenas imagino que esteja a dizer ao tio que perdeu um jogo importante, ou algo assim; e que nessa informação e nesse entusiasmo está o sinal de uma múltipla pertença. Aquela criança é a cultura a (re)fazer-se.
Metro. Duas adolescentes entusiasmam-se com o entusiasmo uma da outra. (Flash de mim próprio naquela idade). Estão a construir um cenário: querem ser médicas; mas querem ser médicas "daquelas que participam em expedições humanitárias"; e como se não bastasse querem ser "médicas-escritoras". Possam elas cumprir os seus sonhos e serão as melhores das cidadãs: com competências técnicas, com responsabilidade cívica e ainda por cima com criatividade.
Casa. A nova empregada doméstica toma iniciativas. Presta atenção ao ambiente onde de repente se encontra, para perceber hábitos e manias. Toma as suas iniciativas e encaixa-as nessa leitura do ambiente da casa de outrem. Deixa uma nota explicando o que fez: letra bem desenhada, português cuidado, boa educação sem subserviência. Ocorrem-me duas palavras, uma na moda, outra antiquada: auto-estima e brio.
PS. Regresso do Feio: Táxi, propriedade do taxista. «Deviam pegar nesses drogados todos, metê-los num barco e afundá-lo no mar alto». O desejo "pequeno-burguês" da "limpeza" passa por desejar que haja "alguém" (a "autoridade") que faça a limpeza "lá longe". O "pequeno-burguês" apenas é "civilizado" porque não pensa pegar numa pistola para fazer "justiça pelas próprias mãos" ou participar activamente num genocídio ou numa guerra civil.
mva |
10:09| 
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