11.10.05
A conta, por favor.
Não a via há anos. Aliás, nem a reconheci logo. Estava sentada na mesa ao lado da minha, bem perto, como costuma acontecer nos nossos restaurantes. Em vez de cumprimentos de circunstância seguidos de um afastamento para a "intimidade" das mesas respectivas, ela manteve conversa comigo, sobre isto e aquilo. O homem que a acompanhava foi-me apresentado e também conversou um pouco. O meu gesto de colocar os óculos e pegar num texto que tinha estado a ler lá deu a dica para o afastamento. Eles também precisavam de regressar à "sua" mesa, mas não pude deixar de sentir que estavam a adiar esse movimento por mais tempo do que é "normal". Cinco minutos depois percebi: tinham-se encontrado para uma daquelas penosas conversas de ajuste de contas após um divórcio ainda fresco. O embaraço, a acrimónia, o mal-estar, o azedume, foram crescendo entre eles, ao mesmo tempo que sentiam - só podiam sentir... - o constrangimento de me terem por espectador. Quanto mais controlavam a acidez, mais ela ardia - e mais eu me sentia como um adolescente que surpreende os pais a fazerem amor.
Os empregados de mesa portugueses demoram uma eternidade a trazer a conta. Mas nunca um empregado de mesa português demorou uma eternidade tão eterna como aquele...
mva |
19:02| 
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