OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


20.9.05  

Regresso às aulas.

É cada vez mais evidente que as expectativas dos estudantes universitários se dirigem para o emprego que possam obter a seguir à licenciatura. A questão da "saída" é, sem dúvida, a grande questão por eles sentida. É também cada vez mais evidente que a licenciatura é vivida como um prolongamento do ensino secundário (para aqueles que têm expectativas "naturais" de seguirem o ensino superior, claro...): na relação com o conhecimento, os professores, os colegas, etc. O primeiro aspecto constitui uma morte anunciada para muitas áreas das ciências sociais, humanidades e artes. Nunca elas poderão gerar saídas profissionais suficientes, pela sua própria natureza. O segundo aspecto também não ajuda: há conhecimentos que só se adquirem com tempo e, sobretudo, muita leitura, coisas que contradizem a noção da universidade como fast food académico ou um longo recreio.

Só há uma maneira de resolver isto - se se achar, como acho, que as ciências sociais e as humanidades são fundamentais para criar pessoas mais críticas e livres (e se não pensarmos que a solução é refugiarmo-nos num elitismo que recusa olhar o real): é transformar a universidade portuguesa em algo mais próximo do college à americana: sem licenciaturas muito específicas, com liberdade de escolha de cadeiras de várias áreas científicas. Nesse ambiente já as ciências sociais e as humanidades sobreviveriam - e cumpririam melhor a sua tarefa cívica - pois seriam parte integrante da formação de toda a gente. Os alunos agradeceriam porque a universidade se tornaria de facto na continuação do ensino secundário. E a questão da saída profissional ficaria remetida para o nível da pós-graduação para os que quisessem ser especialistas duma área. No caso que me toca, não é racional formar dezenas e dezenas de "antropólogos" (i.e., licenciados em antropologia...) ao longo de 4 anos de especialização disciplinar. Seria bem mais interessante ensinar antropologia a gente de muitas áreas diferentes (garantindo, de passagem, o ameaçado emprego a quem já trabalha no ensino de antropologia...) e, na pós-graduação, formar poucos mas bons antropólogos profissionais e/ou académicos.

Com o processo de Bolonha já caminhamos um pouco nesse sentido - mas de pouco servirá passar de 4 para 3 anos de licenciatura se se continuar com a velha estrutura portuguesa das licenciaturas especializadas numa só área e concebidas para um tempo em que os estudantes universitários eram (ainda mais) uma pequena elite - e uma pequena elite anterior à "juvenilização" dos últimos anos, à crescente dependência dos pais e à crise do emprego.

mva | 12:26|