OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


15.9.05  

O sonho fascista.

Com que país (e mundo) sonham os fascistas? Com um país com fronteiras fechadas e autosuficiente na economia; com um país em que o Estado corresponde à "Nação" e vice-versa; com um país onde é possível definir quem é um verdadeiro português e quem não é; com um país onde ser português e ser "branco" é a mesma coisa; com um país fechado à imigração e onde ser negro é sinónimo de estrangeiro e estrangeiro é sinónimo de perigo; com um país em que ao Estado e à "Nação" corresponde uma religião, a católica; com um país onde o Estado obriga o capital e o trabalho a "darem as mãos" em corporações; com um país onde a diversidade de convicções políticas é vista como contraditória do "interesse" nacional; com um país onde a família é erigida em célula básica da sociedade (e não os cidadãos, coisa inexistente e perigosa); com um país onde essa família é definida na base da desigualdade de género; com um país onde a principal função social das mulheres é a reprodução e a maternidade; com um país onde as sexualidades não heterossexuais são proibidas; com um país onde o seu sonho é disseminado através da propaganda e a sua contestação vigiada através da censura.

Este mundo - este país - é objectivamente impossível nos dias de hoje. Cada alínea referida é o reverso da realidade social estabelecida no mundo ocidental nas últimas décadas. O sonho fascista só seria concretizável através duma ditadura. O sonho fascista precisa, para tornar-se realidade, do upgrade em pesadelo. Mas poderemos ficar descansados? Não. Porque há hoje (e de formas mais perversas do que o que aconteceu com a eleição de Hitler...) uma outra forma de propagar o sonho fascista: capitalizando a ignorância e o preconceito, porque o sonho fascista mais não é do que a cristalização em programa dos atavismos mais profundos da nossa sociedade e cultura. Pior do que organizações fascistas minoritárias, é a penetração da direita democrática e mesmo do centro por agendas que respondam a sentimentos racistas, xenófobos, sexistas e homofóbicos em tempos de crise. O Estado democrático que se acautele e aja em consonância. E cada um de nós também - começando pela comunicação social - nas pequenas pedagogias que exercemos todos os dias com todo o tipo de gente.

PS: Estava eu a tomar notas mentais para este post quando começo a ouvir, num Forum da TSF sobre o referendo ao aborto, uma sucessão de intervenções de ouvintes que demonstraram exactamente isto. Um susto: ao longo de um quarto de hora não houve uma só intervenção democrática, já para não dizer liberal ou progressista.

mva | 11:08|