OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


26.9.05  

Hummm...


daqui

Corre-se daqui para ali em frenesi de segunda-feira. Apaga-se um fogo e outro no trabalho. Tomam-se notas fantasiosas sobre textos belíssimos que um dia se há-de escrever. Responde-se a mails que chovem tropicalmente e envia-se outros tantos a gente que teima em não responder. Come-se à pressa com uma amiga há muito não vista e morre-se de culpa porque a conversa, moído o almoço, não assentou arraiais na recordação, tal a presssa (assim, com três s, que a pressa em Portugal é lenta e a lentidão é apressada).

Lá surge uma brecha, coisa breve, em que se pensa na pessoa amada. E a revolta por só surgir numa brecha-coisa-breve.

No meio de gatafunhos, chamadecas, notariado e converseta, uma brecha mais cinzenta, aberta por uma quase-crise da mãe. Já não tenho pai e a mãe está a entrar de rompante na velhice-mesmo. E não se pode tratar da velhice dos outros com(o) um apontamento, uma chamada telefónica, um e-mail. E não se pode pensar na velhice alheia sem pensar na velhice-to-be própria.

E depois, bem, depois, há uma criatura, uma só no meio de centenas e do monóxido de carbono duma cidade feia-que-insistem-em-chamar-bonita. Uma mulher, de idade avançada (que deve ser o contrário da idade atrasada) que se encontra na paragem do autocarro com o marido e sorri com uma felicidade impossível.

mva | 19:03|