23.9.05
Café e BMW.
Uma das minhas alunas de mestrado trabalha num café. Como é americana, isso pareceu-me perfeitamente "normal" (no final do liceu nos EUA fiz todo o meu dinheiro de bolso trabalhando no talho dum supermercado). Depois descobri que uma outra também trabalha num café. Como é brasileira, isso poderia encaixar na categoria de "imigrante". Ambas as afirmações são obviamente estereotipantes. Mas o que importa é o subtexto: "e os meus alunos portugueses?"
É certo que as coisas estão a mudar. Vejo cada vez mais jovens dispostos a trabalhar nem que seja para obter dinheiro de bolso; ou a partilhar casa com outros; ou começando vida autónoma em uniões de facto. Só que ainda não vejo muitos. Para isto concorrem razões sociais e económicas. Mas estas vão junto com disposições culturais do nosso sistema de reprodução social, assente na família e nos conhecimentos obtidos através da mesma (sim, isto é um eufemismo para "cunha"...). A maioria dos jovens ainda vive com os pais; são os pais quem paga os estudos; são os pais quem paga a casa. É fácil perceber qual é o contrato implícito (e que não impede que esta realidade seja vivida por todos como baseada no afecto genuíno): que os filhos sigam vidas pré-formatadas (casamento e não união de facto; hetero e não homossexualidade; etc.); e que a forte ligação familiar se constitua num sistema de segurança social, nomeadamente o cuidado dos pais na velhice pelos filhos.
Muita gente acha tudo isto "normal". Obviamente: é isso a "cultura". Mas a verdade é que isto está longe de ser universal. Sítios há onde os pais não esperam que os filhos venham a tomar conta deles. Por isso investem no planeamento da velhice e da doença; ou dependem de fortes Estados sociais. É justamente nesses contextos que os jovens saem de casa mais cedo e começam a trabalhar para o dinheiro de bolso quando ainda vivem em casa dos pais. Entre nós não só a "cultura dos afectos" é familista e criadora de dependências, como o sistema de classes, estatuto e prestígio faz com que todos esses movimentos de autonomia "pareçam mal".
Tudo muda - e há sinais bons por aí, mesmo no meio de muita precaridade e aflição. Mas tudo é melhor do que a caricatura do jovem pespineta, guiando um BMW a faculdade, onde faz um curso em função dum emprego que de qualquer modo arranjaria através das cunhas familiares, e enquanto espera continuar uma vida de festas na casa que os pais lhe prometeram.
mva |
13:52| 
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