12.8.05
» Teoria política da estrada.
Na nossa civilização há agora dois tipos de seres humanos ocupando o espaço público: os que são só corpo e os que usam um carro para transportar o corpo. Os primeiros continuam tão frágeis como sempre; os segundos fazem-se transportar em armaduras de metal, pesando toneladas e atingindo velocidades superhumanas. Estes têm um poder desproporcionado: podem matar aqueles "de uma só penada". Se se aceitar que a mais poder corresponde mais responsabilidade, compreende-se porque deveriam os condutores ser extremamente cuidadosos, e não só, é claro, com os "peões" (infeliz nome, este, que recorda os trabalhadores no fundo da hierarquia rural...). Só que, infelizmente, não é essa a tese reinante. É-o sim o "darwinismo pop": primeiro instalou-se na interpretação da sociedade, como darwinismo social e sociobiologia; depois penetrou alguma economia; e, sobretudo alguma (muita?) "teoria" política. Não admira, então, que a maior parte das pessoas se comporte como se reinasse a lei do mais forte. No exemplo em causa, o mais forte é o corpo-máquina do condutor-carro, transformado num ciborgue com incrível potencial exterminador. (E as coisas parecem piorar quando os "peões" - recorde-se o outro sentido da palavra... - se transformam em corpos-carro e disparam por aí fora em direcção à sobrevivência dos mais aptos, recuperando o tempo perdido...)
mva |
20:53| 
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