31.8.05
O princípio do fim da III República.
As eleições presidenciais apresentam-se como uma disputa entre Mário Soares, regressado do passado, e eventualmente Cavaco Silva, do passado regressado. É triste: a política portuguesa não se renovou e, aparentemente, não surgiram novas gerações. Bem sei que é um susto imaginar Cavaco Silva na presidência; e que o receio de que tal aconteça pode justificar um apoio, por silencioso que seja, a Mário Soares. Mas tudo isto deixa um travo amargo na boca. Há sectores na sociedade e mesmo em áreas politicamente organizadas da esquerda que poderiam perfeitamente avançar com uma candidatura jovem, de ruptura com aqueles passados estafados; que poderiam apresentar uma candidatura cívica, questionadora do sistema e desta mesma incapacidade de renovação; e que poderiam fazê-lo sem ter que "radicalizar". Desagradável mesmo é se esses sectores recorrerem a velhas - velhíssimas - estratégias, seja a da candidatura partidária autónoma levada até ao fim e protagonizada por um dirigente partidário, seja a da candidatura "para desistir".
No estado em que as coisas estão na cultura política nacional, só uma candidatura cívica, de esquerda, abrangente, questionadora do estado das coisas, teria algum interesse. Não vai acontecer. O que vai acontecer é mais do mesmo, é a velharia - mais dos modos e modelos do que dos candidatos, que isso não interessa - da III República. Contra os que já começam a sentir tentações totalitárias para "dar a volta a isto", a resposta deveria ser começar de facto a dar a volta a isto - mas pelo lado da revolta democrática. A esquerda portou-se mal na preparação das presidenciais. Nada do que se anuncia à esquerda me motiva mais do que a escolha entre dentífricos igualmente milagrosos...
mva |
13:53| 
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