Ela (ou ele) foi radical na juventude. Depois, à medida que "A Revolução" se foi parecendo cada vez mais com a história do capuchinho vermelho (lobo mau, muito mau, incluído), foi, consoante as versões, derivando para a direita ou amadurecendo. A carreira correu bem, o casamento correu bem e ele (ou ela) reproduziu-se. Surgiram então os problemas em torno da escolha do modelo de educação, dos valores a transmitir. Queria ela (ou ele) que o crio passasse pelo entusiasmo revolucionário e se desiludisse como ele (ou ela)? Não. O melhor era resolver o mal pela raiz. E que modelo de resolução do mal pela raiz existe? Bem, o de um passado em que o capuchinho vermelho escolheu outra cor para a roupa e não existem lobos maus - ou se os há, matam-se primeiro e pergunta-se depois. Vai daí ela (ou ele) resolve colocar o crio num colégio privado, gerido pela Igreja (ou, noutras versões, a ICAR) - liberdade de educação, bla,bla, sempre é melhor os miúdos não estarem rodeados de potenciais agentes de arrastões, bla,bla, apesar de tudo os valores conservadores dão base, bla, bla, a religião até que não é uma coisa assim tão má, bla, bla. Ela (ou ele) navega doravante pelo doce oceano da tranquilidade do neo-conservadorismo, serenamente ancorada n' Os Valores. Até que um dia..., ai, até que um dia o crio começa a dizer que acha a religião uma patetice, que acha os colegas uns betos insuportáveis, que acha que a guerra no Iraque não tem justificação possível, que acha que não faz mal nenhum fumar uns charros, que acha que os pais (ele, ou ela, ou ambos) são uns caretas, que, que, que. Ele (ou ela) é agora uma fotocópia sem toner dos seus próprios pais. Ainda tenta correr para a frente, escrevendo uns artigos militantes em defesa do neo-conservadorismo, usando a velha técnica revolucionária, só que para fins diferentes. Rezingão, ele (ou ela) vai apurando a arte do cinismo amargo e da superioridade moral, tudo devidamente lubrificado a doses crescentes de whisky. Moral da História para ele (ou ela): se não os consegues vencer, junta-te a eles. Pelo menos a tua derrota será mais doce.