OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


22.8.05  

Dois uísques (?) na Zamba.

Ontem fiz 45 anos (aaaargh!). Meia idade. Costumo pensar que é bom fazer um exercício - para mim saudável mas que a outros pode parecer perverso. Trata-se de imaginar que se vai morrer no momento seguinte e fazer um balanço de vida. No meu caso, considero que o exercício revelaria uma pessoa privilegiada. Em primeiro lugar porque cresci com pessoas (a família e, logo a seguir, os amigos e as amigas) que gostaram de mim sem me sufocarem e deram bons exemplos éticos e afectivos. Em segundo lugar porque a origem social permitiu que pudesse ter estudado e que não me tivesse faltado o fundamental - e mesmo bem mais do que isso. Em terceiro lugar porque, apesar de Portugal ser um país com problemas terríveis, ainda assim é "primeiro" mundo. Seguem-se as questões em relação às quais é difícil dizer se resultam desses privilégios ou do nosso trabalho pessoal. Em primeiro lugar, amei e fui amado (acreditem, não é tão vulgar como isso); em segundo lugar, descobri a minha "natureza", nomeadamente sexual, assumi-a, senti-me bem com ela e não a escondi de ninguém (os privilégios também ajudaram aqui, é claro); em terceiro lugar escolhi uma profissão que me agrada e me dá gozo e satisfação, ainda que não muito dinheiro...); em quarto lugar, acho que tentei dar algo aos outros - algumas pessoas fazem-no tendo filhos desejados, outras ajudando pessoas; acho que o fiz sendo social e politicamente activo (em todos estes casos o que interessa é o caring e a dádiva); por fim, acho que fui conseguindo ser crítico, auto-crítico e acompanhando as mudanças, e de preferência sob a égide de algum sentido de humor - características poucas vezes elogiadas. Não acredito em deus, levo em pouca consideração a "pátria", detesto preconceitos e discriminações, não me comporto como um assassino na estrada e não desejo mais fama do que o prazer incontestável que dá ser reconhecido pelo que faça.

Quanto aos defeitos (são vários, acreditem...) e aos erros cometidos e males feitos (outros tantos...), compete aos outros dizerem (que eu prometo ouvir...). Posto isto, que o exercício, perverso ou saudável, vá para as urtigas - viver é maravilhoso: respirar, sentir, comer, dormir, fazer amor, ver uma paisagem, ler um livro, ver um quadro, uma peça, uma dança, um filme, escrever um post, viajar, beber uns copos, conversar com amigos, you name it. Um brinde a todos e todas, de um destes uísques que permitem escrever posts egocêntricos e tolinhos como este.... E com a promessa de que a coisa não se repete tão cedo.

mva | 21:17|