OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


29.8.05  

Arquivo do Verão, 2:
Portugal.

Portugal / Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos / Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África / só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais / e nunca mais voltasse / Quase chego a pensar que é tudo mentira, que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney / e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente / Portugal / Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional / (que os meus egrégios avós me perdoem) / Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo /Anda na consulta externa do Júlio de Matos / Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar / àparte o facto de agora me tentar convencer que nos / espera um futuro de rosas / Portugal / Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império / mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado / Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse / das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador / Portugal / Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to / Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir / Portugal / Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém / Sabes / Estou loucamente apaixonado por ti / Pergunto a mim mesmo / Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu / mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal / e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade / Portugal estás a ouvir-me? / Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete, Salazar estava no poder, nada de ressentimentos / o meu irmão esteve na guerra, tenho amigos que emigraram, nada de ressentimentos / um dia bebi vinagre, nada de ressentimentos / Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga / ia agora propôr-te um projecto eminentemente nacional / Que fossemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou / Portugal / Sabes de que cor são os meus olhos? / São castanhos como os da minha mãe / Portugal / gostava de te beijar muito apaixonadamente / na boca

(Jorge de Sousa Braga, O Poeta Nu, Ed. Fenda, 1991.)

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