22.7.05
Um axé para Nori.

De quando em quando tenho destes repentes: tentar encontrar o rasto de amigos perdidos há muito. A Internet facilitou tremendamente o assunto. Uma vez, antes da Net, uma carta para um amigo alemão ainda teve que ser reenviada pelo seu pai para a Austrália, para onde o meu amigo havia emigrado. Mas hoje é mais fácil. Às vezes tremendamente fácil. Como no caso do meu amigo nigeriano, o Nori. Estou a ler um livro do filósofo nigeriano Kwame Appiah, The Ethics of Identity e, ontem, a propósito das execuções de homossexuais no Irão, fiquei a saber que também na Nigéria têm sido executados gays. O tema "Nigéria" espoletou a vontade de guglar pelo Nori. Conheci-o nos EUA nos anos 80. Estávamos na mesma universidade, eu estudando antropologia, ele música. Nascido nos Camarões, mas na realidade Yoruba da Nigéria, o Nori seguiu a carreira de cantor lírico, performer, professor. Perdi-lhe o rasto. Hoje resolvi fazer uma busca. Uma referência de 2002 dava-o em Nova Iorque, entre outras coisas ensinando na NYU. Haveria uma referência mais recente, que eventualmente me conduzisse a um endereço electrónico? Havia, mas revelou-se tremenda e fez-me perder o rasto do Nori de vez: Nori morreu em 2004, aos 47 anos.
Já nem me lembro das circunstâncias em que o conheci. Lembro-me apenas da simpatia dele, do bem que cantava, do seu sorriso, e duma espécie de inocência confrangedora. Lembro-me do espanto com que descobriu a sério o racismo e as voltas que este dá quando um seu namorado afro-americano (!) se zangou com ele, agredindo-o e insultando-o com a expressão "macaco africano". Lembro-me de dançarmos horas a fio num bar gay, o Numbers, perdido numa estrada rural. Lembro-me de chás e boas conversas em casa de amigos comuns. Lembro-me da facilidade com que tocava os outros, com que abraçava os outros, com que sorria para os outros - doce, docemente, sem espalhafato e apenas porque that came natural to him. E agora, com o atraso de um ano, e via Net, e quando procurava contactá-lo de novo, ele vai-se-me.
Na Bahia fiquei a conhecer relativamente bem a religiosidade afro-brasileira marcada por uma grande influência Yoruba. Por isso, com certeza o Nori perceberia se lhe enviasse um grande, grande axé. E para os leitores que têm que aturar a tristeza que sinto: não pensem nunca que estar vivo é o estado normal, uma coisa que vai de si. É, isso sim, um incrível privilégio. Um brutal privilégio.
mva |
22:31| 
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