Cada vez mais me sinto "órfão de esquerda". Eu e muita gente. Do PS ao Bloco vêm cada vez mais sinais do que se poderia, condescendentemente, chamar "tibieza" - ou, mais irritadamente, "cobardia". Onde se nota isto? Num curioso fenómeno que consiste em juntar a fome à vontade de comer - isto é, o pragmatismo ou possibilitismo políticos (o cálculo), por um lado, e a subserviência a uma ideia incomprovada do que será a "mentalidade" dos portugueses. Estas duas coisas juntas resultam em atraso, manutenção do status quo e na reprodução da ideia de que este é um país lento, retardado e, em última instância, inviável. Onde isto se nota mais é, claro, nas questões "civilizacionais". Já se percebeu que, do PS ao Bloco, o consenso é no sentido de "avançar" (em português isto quer dizer "ir devagar") para o casamento entre pessoas do mesmo sexo mas separando o assunto da adopção. Do PS ao Bloco, a esquerda está refém do terrorismo infantil à portuguesa. Como homossexual e pessoa de esquerda não posso admitir isto nem em nome do pragmatismo político (se calhar não estou é talhado para a actividade política partidária tradicional...). O medo de incluir a adopção com o casamento (ainda ontem: Sónia Fertuzinhos, no Público e, dias antes, F. Louçã num jornal madeirense - embora a notícia fosse tão mal escrita que não se conseguia perceber o que FL disse de facto) é o mesmo que o medo que se sentiu quando da aprovação das uniões de facto - não andavam vastos sectores "progressistas" a dizer que se calhar era melhor só a economia comum e que o país não estava preparado para as uniões de facto? Como homossexual e pessoa de esquerda, qualquer mexida nas leis do casamento que não inclua os direitos todos é um insulto. Também nas questões de imigração e semelhantes, a tibieza e a cobardia imperam. Hoje mesmo se soube que António Vitorino - o mais irritante bluff político da "esquerda" nacional -, na Universidade Católica of all places foi dizer que é preciso estimular a natalidade e que a abertura à imigração não bastaria para resolver o "problema". Tudo isto é dito na maior inconsciência sobre o que significa para as mulheres uma campanha de estímulo à natalidade: é o grande passo para reenviá-las para casa e para a (ainda maior) reificação dos mitos da maternidade. De caminho, Sócrates anuncia uma nova lei da nacionalidade que é o suprasumo da cobardia política. Salazarengamente dependente, como a direita, das ideias tontas sobre o País e o estado-nação, a esquerda portuguesa não tem qualquer problema em perpetuar a ideia de que este país se faz de portugueses verdadeiros, reproduzidos por mulheres obedientes em estruturas familiares tradicionais. Por fim, a cereja no bolo. No Bloco sabem bem como me revolta o diploma proposto sobre procriação medicamente assistida. Sei que foi feito na base de muito trabalho, dedicação e empenho técnico. Mas o problema político mantem-se: como é possível pensar em PMA apenas para casais (assumindo para mais que "casais" quer dizer casais hetero)? Como é possível, na esquerda, não propor o acesso livre a PMA por toda e qualquer mulher - como aliás acontece em Espanha?
Se a esquerda portuguesa quer fazer um trabalho de transformação civilizacional - e a política serve também para ir à frente da sociedade e não para seguir os "sinais" desta, obtidos aliás por duvidosos métodos de sondagem, consulta, inquérito, etc - não pode interiorizar o terrorismo cultural da ICAR e dos interesses instalados. Mas, sobretudo, não pode encalusurar-se no universo bafiento do cálculo político-eleitoral, porque corre o risco de passar a agir apenas em função de bons scores eleitorais. Não defendo um maximalismo radical que corra o risco de impossibilitar qualquer mudança. Pelo contrário: estou a dizer que a esquerda portuguesa fica aquém daquilo que é possível fazer e com sucesso, e fica aquém daquilo que deve fazer para merecer o nome de esquerda. É por isso que ela, enquanto estruturas partidárias, me interessa cada vez menos. E é pena.