OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


20.7.05  

Pape Moe.



Mario Vargas Llosa em O Paraíso na Outra Esquina narra, entre outras, a história por detrás do quadro de Gauguin Pape Moe ("Água Misteriosa", 1893). Gauguin não se interessava muito por sexo enquanto prosseguia uma carreira na Bolsa de Paris. Já antes, quando fora embarcadiço, não lhe agradavam as prostitutas nos portos e terá resistido ferozmente às investidas dos marinheiros sobre o seu próprio corpo. Quando descobriu a pintura e, depois, entrou na fase de fuga da "civilização", acabou por "descobrir o sexo" com a sua "concubina" em Tahiti. Sexo e pintura passaram a andar de mãos dadas, um alimentando a outra e vice-versa. Um dia Gauguin foi com um jovem em busca de uma madeira com que fazer as suas esculturas de ídolos Maori por ele inventados (tal o exotismo que o dominava...). O rapaz caminhava à sua frente e o pintor sentiu uma tremenda excitação sexual. O que o "transportou" não foi a vontade de ter sexo com o rapaz da maneira que tinha descoberto o sexo com a sua amante, mas sim o inverso. Tomando banho numa lagoa a meio do caminho, Gauguin acabou sendo penetrado pelo jovem, no que Llosa descreve como uma experiência erótica sublime. Llosa/Gauguin descrevem o rapaz como pertencendo à categoria local (Tahitiana/Maori) de "terceiro sexo", expressão algo errónea para referir homens que têm sexo com homens - com total aceitação social. A busca do exótico, o fascínio com o "selvagem", a vontade de fuga da "civilização" passaram, para Gauguin (pelo menos o de Llosa), pela descoberta das suas potencialidades eróticas.

mva | 20:28|