OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


17.6.05  

Frost.



«Está quente. Está feio. É feio e está quente. É quente e está feio. No horizonte (Cova da Moura? Aldeia da Roupa Branca?) vêem-se nuvens castanhas. O ar pesa. Cheira a lixo. Há pedintes na rua em cruzamentos com sinal fechado. Uma pessoa por cada dois carros - no sinal fechado. Amanhã a fachalada manifesta-se e em Bruxelas não se entendem - e fico no sinal fechado, entalado. Lisboa agoniza, pestilenta, feia como a morte e a velhice dos trapos. Carmona finge que não é Santana; Carrilho publicita a sua capacidade reprodutora; Sá Fernandes fala de hortas; do Ruben nada sei. Está quente e feio e castanho e pesado e sujo e fechado e agonizante e pestilento e feio e morto e velho e hortícola e ignorante na cidade onde vivo. 800 anos de fingimento à beira da exaustão. A exaustão dos rios que por aqui desaguam, negligentes e cansados, o aluvião. Sociedade de aluvião: lama e sarro e sedimento - e não, não me venham com a do estrangeirado que tem por tiques acender cigarro e dizer mal do país. É o país que diz mal de nós - ainda não perceberam? É o país que diz mal de nós, ainda não federam?

Na esperança de dias melhores,

mva | 18:36|