OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


19.6.05  

E agora ide para vossas casas destilar vossos ódios.

A inteligência (no sentido estrito, é claro) política da ICAR, da Opus Dei e das suas sucursais "familistas" em Espanha fez com que ontem não surgissem slogans e cartazes explicitamente homofóbicos nas ruas de Madrid. Mas a referida inteligência é feita duma mistura de matreirice e hipocrisia: no contexto actual (de alteração do Código Civil espanhol), defender os modelos "tradicionais" de casamento e família é um apelo à exclusão e à desigualdade perante a lei. Até porque, por baixo desta aparente "civilidade" dos manifestantes, há reivindicações explícitas no sentido de impedir as alterações do Código Civil.

Em blogs, jornais e conversas várias percebe-se a fraqueza da cultura democrática entre nós. Gente que acha que os manifestantes de ontem em Madrid estavam simplesmente a demonstrar a sua "opinião". Não estavam. Estavam a exigir que um segmento da população tenha menos direitos que outro. Mais grave ainda é quando alguém se deixa convencer pelos "argumentos" (again: "inteligência política em sentido estrito") de um grunho televisionado que reivindica o direito a demonstrar "orgulho em ser branco". Nem vale a pena desmontar o absurdo desta frase: basta lembrar que os racistas que se manifestaram ontem em Lisboa querem explicitamente limitar os direitos de outras pessoas - ao trabalho, à residência, ao respeito, à nacionalidade, à cidadania.

A luz optimista ao fim do túnel é que o governo espanhol não vai retroceder na alteração do Código Civil; e em Portugal Sampaio foi à Cova da Moura demonstrar simbolicamente onde se situa a República face ao racismo.

mva | 12:27|