OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


23.6.05  

Cidade capital cosmopolita.



As cidades são os lugares por excelência do encontro e confronto de diversidades e desigualdades múltiplas. As cidades são os lugares para onde acorrem refugiados políticos, imigrantes em busca de trabalho e/ou liberdade, mulheres que se independentizam, gays e lésbicas que procuram comunidades de libertação e apoio, jovens em busca de autonomia, pobres em busca de melhor vida. As cidades são também os lugares por excelência do encontro e confronto entre diferentes visões do mundo, da sociedade, da pessoa. Por isso as vanguardas artísticas, os experimentalismos e as dissidências ocorrem no seio do burburinho urbano. Estas duas dimensões são as dimensões do cosmopolitismo - uma concepção que recobre a expressão "multiculturalismo" mas que lhe retira a carga essencialista, de separação entre grupos culturais que coexistem hierarquizados, e que acentua mais a produção de híbridos e de novidade, preocupando-se com a criação de igualdade de oportunidades. "Cosmopolitismo" deve também ser sinónimo de liberdade - de muitas liberdades pessoais e muitas liberdades colectivas de identificação, associação, expressão. A capital de um país deve ser o lugar por excelência da promoção de valores cosmopolitas de diversidade e do combate contra as desigualdades. As duas "culturas" - a cultura com c pequeno no seu sentido antropológico e a cultura com c grande, no seu sentido artístico (e só faço esta distinção por razões de facilidade no discurso) - devem ser duas prioridades numa visão de cidade capital cosmopolita. Tal só se consegue com apoios concretos. Ambos constituem investimentos sociais, no sentido em que os gastos de hoje colherão frutos no futuro em termos de menos conflito social e maior dinâmica cultural (algo que pode reflectir-se, por exemplo, no turismo, na imagem que uma cidade projecta para fora). Em Lisboa não existe verdadeiro apoio ao associativismo (há-o, mas pouco, para as colectividades de cultura e recreio; é inexistente para associações representativas de minorias sociais étnicas, de género ou sexuais). Mesmo conseguido esse apoio - que deve ser financeiro e material - é preciso que a CML apoie também a visibilidade e dignificação das expressões minoritárias. É, por exemplo, inconcebível o exílio a que foi votado o Arraial Pride LGBT para o Parque do Calhau (!), retirando-o do centro da polis, ou a desatenção a um evento de qualidade como o Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa. O mesmo poderia ser dito de empreendimentos relacionados com a imigração ou com as mulheres (onde estão as esquadras de polícia para mulheres, por exemplo?). No plano da cultura com c grande, idem: aos poderes públicos não compete apenas apoiar "o que há" (repertório, tradições, etc), numa perspectiva parecida com a da direita em relação ao patrimonialismo, mas sim apoiar as vanguardas e as experiências, pois são elas que depois vão dar frutos na criação de uma cidade mais dinâmica e moderna. O estado calamitoso de Lisboa em todos os planos leva a que se tenha uma tendência "conservacionista" e estimula nostalgias de classe média em relação a supostos tempos de "bairros", "proximidades", "tranquilidades" e outras fantasias bucólicas. Mas não podemos cair nessa armadilha - o caminho é para a frente, não para trás. Sobretudo nestas áreas das "duas" culturas.
Tudo isto faz ainda mais sentido no quadro não só da integração europeia como, sobretudo, da integração ibérica: qual a mais valia de Lisboa? Creio que é aquela que António Pinto Ribeiro já definiu: plataforma de cruzamento (humano, simbólico, artístico, etc) entre a Europa, a África e a América - sobretudo Latina). Lisboa deve ser um porto: de abrigo, de misturas e de liberdades.

Que fazer nas autárquicas?

Na candidatura de Carrilho, tudo isto se resume à retórica a que nos habituou. Não é com os pequenos protagonismos típicos do PS que Lisboa se safa (e desde o episódio do vídeo e da criança é mesmo "pequeno" protagonismo). Na candidatura de Ruben vislumbra-se o aparelho do PC a reunir tropas para a sua obsessão de medir forças com o Bloco. Quanto a este, apressou-se a servir de apoio partidário à candidatura de Sá Fernandes. Pessoalmente, já manifestei ao Bloco que me desvinculo desta candidatura. Por uma questão de princípio: não aceito, a não ser para a Presidência da República - cargo unipessoal - candidaturas pessoalizadas e na base dos protagonismos cívicos. E por questões de conteúdo: o programa-base com que se apresentou é colado do património do PPM/Ribeiro Telles/MPT, uma espécie de nostalgia patrimonialista de uma cidade tranquila, de bairros e hortas, que ou nunca existiu ou só existiu para alguns à custa da exclusão periférica de muitos.

A esquerda portou-se mal em Lisboa. Não há paciência para o jogo da simples contagem de espingardas partidárias, ou de falsas alternativas pessoalizadas - sobretudo quando já houve uma candidatura, a do Bloco nas últimas eleições, que se preocupou mesmo em construir um excelente programa com valores de promoção da igualdade, de estímulo à liberdade e com visão "metropolitana" (é a área metropolitana que deve ser pensada, não o concelho - e é por este concelho não fazer sentido que os partidos tornam a lógica eleitoral numa lógica nacional). Posto isto, não apoio nenhuma candidatura, mesmo que vá votar para impedir o jogo sujo de Carmona Rodrigues (Nogueira Pinto protagoniza apenas uma candidatura misericordiosa...), cuja estratégia é fingir que só ele não é como Santana Lopes (quando ele é Santana Lopes, como o é a actual Câmara que se propõe ser reconduzida).

mva | 14:30|