OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


24.6.05  

Carta aberta.

Dantes havia a instituição da "carta aberta": uma pessoa, geralmente um intelectual engajado ou alguém na política, escrevia a outra pessoa do mesmo tipo ou a uma instituição, contestando alguma coisa e tornando essa contestação pública através de um jornal. Isso era nos tempos em que o espaço público era coutada de meia-dúzia e dependia dos jornais. Hoje isso está (mais) democratizado (é claro que é preciso saber escrever, usar um computador e aceder à Internet, mas já é mais democrático): basta usar um blog - sem passar pelo crivo das redacções dos jornais.Os partidos - sobretudo os de esquerda - ainda não perceberam isso. Ou não lêem os blogs ou olham-nos de cima. Sobretudo em Portugal, por causa da bizarra característica de o fenómeno blogueiro ter começado na direita-caviar (perdão, na direita-torresmo, para fazer simetria). Insistem em jornais internos que de pouco servem; insistem em louvar a democracia interna mas protelando a participação para eventos de quando em quando. Isto vai afastá-los cada vez mais do contacto com @s livres-pensadore/as e com as identidades complexas e fragmentadas da maioria das pessoas, começando pelos mais jovens. Essa complexidade e essa fragmentação impedem as pessoas de aderir a partidos políticos, porque estes se apresentam como burocracias e como projectos em que é preciso comprar o pacote todo.Nada tenho contra os partidos e detesto o populismo para-fascista do discurso anti-partidos. Eles não só são necessários, como são fundamentais para a democracia. Mas se continuam a repetir velhos hábitos, desligar-se-ão do demos em "democracia" e tornar-se-ão em "pessoas colectivas" ou "corporações". E @s livres-pensadore/as sairão deles sem qualquer hesitação.É claro que - reconheço - no quadro institucional actual, os partidos, se querem ser eficazes, têm que se organizar como pessoas colectivas ou corporações. Mas @s livres-pensadore/as é que não têm que engolir isso como uma fatalidade - desde que continuem a sua acção política e cívica noutros fora, através de outros media e deixando-se permear pela complexidade e a fragmentação.

mva | 11:40|