OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


27.6.05  

Balanço.

A Marcha LGBT não terá dado ainda o grande salto quantitativo, ao contrário de outros países, embora tenha parecido mais concorrida a quem lá esteve. No entanto, creio não errar se disser que deu um grande salto qualitativo. Refiro-me ao mais importante: a mediatização (enquanto sinónimo de importância social e política, não, é claro, enquanto mero tabloidismo). Tal deveu-se à escolha justa e acertada do tema do casamento como reivindicação central. Este tema tem várias características férteis: é uma reivindicação positiva, em que um grupo excluído exige o acesso ao "centro"; é uma reivindicação entendível, pois o grosso da sociedade sabe o que é o casamento; é uma reivindicação incontornável, pois obriga todos os sectores sociais e políticos a tomarem posição sobre ela, a confrontarem-se com a homofobia, mesmo que subtil, e a serem coerentes com a defesa do princípio da igualdade. É uma reivindicação simultaneamente progressista e aberta a tod@s, na linha dos direitos civis. Por fim, é uma reivindicação estratégica, à boleia da evolução espanhola e do que começa a acontecer um pouco por toda a Europa.

O movimento LGBT está de parabéns pela sua crescente capacidade política e pela superação dos medos e receios sobre essa vaguíssima entidade chamada "sociedade portuguesa" (e a sua famigerada "mentalidade"). Nas ruas da capital exigiram-se direitos, igualdade e dignidade.

Por fim, nunca será demais chamar a atenção para o seguinte: em Portugal, as associações LGBT fazem o seu trabalho com meia-dúzia de voluntários, tod@s pessoas com as suas vidas profissionais e familiares; o trabalho não é remunerado e não dá benesses; as entidades públicas, ao contrário do que acontece noutros países, não dão qualquer apoio financeiro sustentado ao funcionamento e acção das associações. Quaisquer 100 euros para pagar um qualquer panfleto são tirados a ferros, a maioria das vezes dos recursos da próprias pessoas. Por tudo isto, acho que o movimento LGBT deveria engajar-se na exigência de respostas claras por parte das candidaturas autárquicas. No caso de Lisboa, é simplesmente básico que o Arraial Pride volte a ocupar um espaço central da cidade, um local onde desemboque a marcha; e que o associativismo seja dignificado com o apoio público, no que será um investimento "civilizadamente normal" na criação de cidades mais igualitárias e diversas. E esperemos pelo crescimento de uma campanha pelo direito ao casamento, envolvendo cada vez mais os sectores não-LGBT da sociedade.

Beijos e abraços de parabéns e agradecimento a todo o voluntariado LGBT!

mva | 10:50|
Comments:
Sugestão: Por que não nos propomos a modificar uma série de entulhos jurisdicistas a respeito do casamento? Não apenas a libertade de opção e orientação sexual, mas muitas outras mais? Acho que sim. Suspeito que, enquanto não avaliarmos o casamento tal como está,não progrediremos. A bandeira LBGT é uma bandeira importante, mas não é a única. Há outras, enfim. O modelo de casamento hoje é burguês, há que se fazer algo para transformá-lo: suas ideologias e concepções. Para que o casamento LBGT não seja uma amarra como é o casamento burguês ocidental. Li, estes dias, uma definição de "burgues", derivada do historiador Darnton. Parece que, no seu livro "O massacre dos gatos", ele tem um capítulo sobre o que é burguês. Tudo clama que seja interessante.
 
Para transformar o casamento: primeiro: é preciso casar
segundo: é preciso descasar
terceiro: é preciso não voltar a casar

Reivindicar qq coisa socorrendo-se do subterfúgio do "casamento burguês", é muito desonesto.

Est@ senhor@ talvez possa ensinar algo sobre o "verdadeiro" e "bom" casamento
 
concordo com a análise que fazes da Marcha... e resolvi comentar para deixar uma agradecimento aqui a uma pessoa que quero reconhecer publicamente como um dos mais esforçados construtores da Marcha deste ano... um obrigado assim ao Paulo Corte Real pelo seu incansável esforço!
 
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