OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


10.5.05  

Casamento e divórcio.

Portugal é um país pequeno, periférico e pobre no contexto europeu. Talvez por isso a sua esquerda tenda a situar-se ao centro (como é o caso do PS) ou a ancorar-se na tradição histórica (como é o caso do PC). Fenómenos como o BE são tirados a ferros e minoritários.

Também por aquelas razões, os movimentos sociais são fracos e ligados a tradições históricas mais instaladas. Embora tenha crescido exponencialmente nos últimos anos, o movimento LGBT não tem ainda força suficiente. O resultado desta dupla situação - nos partidos e nos movimentos - é que é "natural" (no sentido de previsível) que seja o segmento mais pequeno e mais inovador (o BE) a acarinhar a agenda do segmento mais recente e mais desafiador da tradição (o LGBT).

Isto pode levar a confusões, como a acusação de controlo político do movimento. Mas é uma confusão: a expectável juxtaposição de pertenças (BE e LGBT) não é necessariamente um fenómeno de "correia de transmissão". Vem aí - mais tarde ou mais cedo - uma questão que vai tornar isto claro: embora o BE tenha no seu programa eleitoral a referência ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, é bem provável que a sua prioridade política no campo das liberdades sexuais seja de carácter mais genérico (por exemplo, uma lei anti-homofobia); por força da esquerda ter que navegar no tal país pequeno, periférico e pobre, ou por força de algum purismo anti-patriarcal transformado em puritanismo (um torcer de nariz emocional à palavra "casamento").

O movimento LGBT tem aqui uma oportunidade de ouro para estabelecer a sua agenda à frente dos partidos - à frente, obviamente, do conservadorismo do PS (exceptuando - honra lhe seja feita - a JS), e à frente de algum esquerdismo no Bloco. Tornar o direito ao casamento civil na principal reivindicação LGBT seria, por paradoxal que possa parecer a alguns, a decisão mais revolucionária de todas - pelo que tem de exigência de igualdade nos direitos; pelo que tem de desafio ao conservadorismo da ideologia de género e da família, e pelo que tem de recusa da marginalização libertária/esquerdista das lutas LGBT.

mva | 11:02|