OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


26.4.05  

Uma experiência forte...



...foi ter visto ontem In My Country, de John Boorman. Calhou mesmo bem, no meio da leitura da autobiografia de Mandela, a que me referi há dias. (É, aliás, curioso que me "concentre" no apartheid e na libertação sul-africana quando estou a investigar questões de discriminação e libertação com base na orientação sexual...). A África do Sul é um caso fascinante, que convoca todas as contradições do colonialismo e das lutas de libertação nacional. Todos temos a perplexidade e hesitação da personagem do jornalista negro norte-americano perante um país que viveu um autêntico fascismo e onde, mesmo assim, as pessoas em diferentes lados da barricada não só tinham (também) relações de intimidade entre si, como conseguiram prosseguir a estratégia da "Verdade e Reconciliação". Pense-se em como não aconteceu o mesmo na Alemanha do pós-guerra ou, salvas as devidas proporções, em Portugal (vide caso das listas dos informadores da PIDE...). A estratégia da Truth and Reconciliation teve a inteligência de se basear quer na ética de fundo religioso protestante, muito expandida na África do Sul, quer em conceitos "tradicionais" africanos sobre a interligação entre as pessoas ("quem que faz mal a alguém faz mal a todos e a si próprio") - no fundo, duas versões do mesmo e coincidentes, ainda, com a ética secular. Falar, pedir desculpas e ser amnistiado: uma espécie de regime confessional para os tempos (pós)modernos, que vê na socialização da culpa o próprio castigo - talvez o pior de todos.

mva | 13:07|