26.4.05
Uma experiência forte...

...foi ter visto ontem In My Country, de John Boorman. Calhou mesmo bem, no meio da leitura da autobiografia de Mandela, a que me referi há dias. (É, aliás, curioso que me "concentre" no apartheid e na libertação sul-africana quando estou a investigar questões de discriminação e libertação com base na orientação sexual...). A África do Sul é um caso fascinante, que convoca todas as contradições do colonialismo e das lutas de libertação nacional. Todos temos a perplexidade e hesitação da personagem do jornalista negro norte-americano perante um país que viveu um autêntico fascismo e onde, mesmo assim, as pessoas em diferentes lados da barricada não só tinham (também) relações de intimidade entre si, como conseguiram prosseguir a estratégia da "Verdade e Reconciliação". Pense-se em como não aconteceu o mesmo na Alemanha do pós-guerra ou, salvas as devidas proporções, em Portugal (vide caso das listas dos informadores da PIDE...). A estratégia da Truth and Reconciliation teve a inteligência de se basear quer na ética de fundo religioso protestante, muito expandida na África do Sul, quer em conceitos "tradicionais" africanos sobre a interligação entre as pessoas ("quem que faz mal a alguém faz mal a todos e a si próprio") - no fundo, duas versões do mesmo e coincidentes, ainda, com a ética secular. Falar, pedir desculpas e ser amnistiado: uma espécie de regime confessional para os tempos (pós)modernos, que vê na socialização da culpa o próprio castigo - talvez o pior de todos.
mva |
13:07| 
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