OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


25.4.05  

Cravos e ferraduras*

Li ontem, já o 25 de Abril começara, que Sócrates não só convidou Ratzinger (os jornais bem se esforçam por nos habituar ao Bento, mas eu acho que este Papa vai ser sempre conhecido pelo seu nome, verdadeiro oposto fonético e imaginário do nome papal) a visitar Portugal, como disse que esse convite correspondia ao sentimento nacional. Não pude acreditar. Um primeiro-ministro, para mais socialista, arroga-se o direito de dizer que nós tod@s desejamos que Ratzinger venha a Portugal?! Trinta anos depois do 25 de Abril?! Provavelmente Sócrates pensa que pode justificar isto com a necessidade de garantir a continuação do turismo a Fátima; se calhar pensa que toda a gente fica contente com a sua estratégia de defesa dos interesses económicos nacionais; se calhar pensa que é a isto que se chama "sentido de Estado". Oh, pobreza mental...

Sócrates, como tantos e tantos socialistas, continua prisioneiro da ideia não confirmada (é como aquelas "notícias" puramente ideológicas que aparecem nas páginas de "ciência" dos nossos fraquíssimos jornais, falando de "descobertas" sobre diferentes aptidões intlectuais de homens e mulheres e outros penamentos mágicos do género...) de que o país é esmagadoramente católico, esmagadoramente papista e de que ganhará votos, apoio e paz com a subserviência à ICAR. Basta ler um bocadinho de sociologia para perceber que não é nem assim; e basta um líder político que tenha a coragem de mostrar as suas verdaeiras convicções progressistas para que a sociedade real, para lá das ideias feitas, abrace a mudança.

Foram-se os cravos, ficaram as ferraduras: pesadas, de ferro, de cavalgadura - e próprias de mentes supersticosas e aflitas.

PS- Como são fracos os jornais portugueses lidos à distância! Já nem o Público se safa, tal o conservadorismo de muitos opinadores, ou a sensação geral que me assalta de a maioria dos jornalistas e cronistas "pensa mal", isto é, com poucas bases, pouco rigor, pouca lógica, pouco rasgo e ainda pior argumentação e retórica. Independentemente das ideologias, a comparação com um El Pais ou um Le Monde - e até com jornais locais de Barcelona! - é absolutamente confrangedora. Pouco me importa que isto pareça a típica queixa tuga que de tão aparentemente estrangeirada acaba parecendo provinciana: é que o problema, quando bem visto, não assenta no "carácter nacional" ou sequer na "pequenez do país", mas sim num problema verdadeiramente político de assalto dos media pelos poderes instalados. Temos com certeza liberdade de expressão no nosso país, mas não estamos livres dum poderoso condicionamento mental - exemplo disso é a campanha a que se assiste para a limpeza de Ratzinger (vide Público), em que até o primeiro-ministro participa desnecessária a pateticamente. Há coisas que se vêem melhor quando se está fora ...

* Frase roubada a um mail da Leonor...

mva | 14:59|